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sábado, 30 de junho de 2012

A Arca



— Quanto tempo nós temos?
—Três meses. Mas precisamos evacuar o planeta o quanto antes. O Sol já começa a sua expansão e isto aqui em breve vai se tornar um verdadeiro inferno.
— Sobrou algo para levar?
— Não. Todos os vestígios da nossa civilização serão apagados de qualquer modo. O próprio planeta o será.
—Ainda bem que recolhemos amostras de todos os animais e vegetais para leva-los conosco.
— Veja só: estão entrando.
Como se adivinhassem a catástrofe iminente, os animais entravam nas naves, lado a lado, em casais, resignados a serem salvos pelos mesmos seres que os perseguiram desde pisaram a Terra. Não houve nenhum caso de ataque de animais durante a evacuação. Eles simplesmente passavam e se acomodavam nas naves sem emitir qualquer som. Com o tempo os cientistas já os tratavam como animais domésticos, tal a sua docilidade. Tigres, leões, ursos e outros ocupavam docemente os seus lugares nas naves.
Através do mundo, expedições os recolheram e embarcaram nos transportes que os têm levado até a Arca II. Os vegetais seguem logo atrás em naves especiais, junto com os bancos de sementes e de DNA, estes congelados em nitrogênio líquido. A operação toda era seguida de perto pelos olhos zelosos dos cientistas.
— Arnak, diga sem rodeios, há esperança para nós?
— Watus, tudo indica que sim. Mas seria melhor se apenas os animais e vegetais sobrevivessem.
— Você defende que não sobrevivamos como espécie?
— Watus, o Universo é cíclico: a nossa raça emigra a outros planetas, destrói-os e sobrevivem apenas os cientistas,  que empreendem nova emigração.
— Não diga isso! É absurdo!
— Não é absurdo; é fato comprovado. Eles povoam o novo planeta para que tenhamos uma nova chance; então escondem o conhecimento dos descendentes para que estes se desenvolvam intelectualmente. Aprendem muito, inclusive paralelamente a findar e salvar vidas, mas dão preferência à primeira atividade.
— Não há como parar isso?
— Sim. A extinção. O talento para a destruição é inerente ao ser humano; parece que há uma predisposição a isso.
— Como pode saber dessas coisas? Está especulando novamente?
— Eu bem sei que especular é um talento meu, mas dessa vez eu tenho provas. Lembra da lenda de Atlântida?
— É claro. Quem não ouviu essa lenda?
— Perdoe-me por discordar de você. Ela foi encontrada há um ano. Nela, estavam arquivos em forma de disco, semelhantes aos de Bairan-Kara-Ula*; eles são compostos de uma liga desconhecida, que bombardeados com micro-ondas produzem uma perturbação da luz visível que se transforma em imagens, enquanto a vibração dos discos nos dá o som. Lá estavam registradas as variadas fases da nossa espécie através do Cosmo. De planeta em planeta, a nossa evolução é a mesma. É como se fôssemos programados para isso.
— São aqueles discos ali?
— Não. Aqueles são os novos, com a história da civilização atual; aprendemos a fabricá-los e gravá-los.
— O que me intriga é que todos tenham chegado até nós.
— São indestrutíveis. A liga que os compõe uma vez que esfria emite nêutrons tornando-se um novo metal, o material mais estável do Universo. Nada pode destruí-los, nem mesmo a explosão de uma supernova.
Como sabe disso?
— Informação dos discos. Sabe-se lá como, eles fizeram experimentos e descobriram isso. Sabendo que chegaríamos a eles, gravaram as informações para aprendermos a fabricá-los.
— Lá eles dizem como surgimos no Universo?
— Somos quase tão antigos quanto ele. O primeiro planeta a se solidificar após o Big Bang gerou vida e nós fomos a coroa da criação.
— Parece linguagem bíblica.
— E é. Os conceitos contidos na Bíblia surgiram conosco. Apenas nos lembramos deles, criamos uma nova religião para difundi-los e em breve nos surpreendemos matando e torturando para impô-los aos outros. Curioso como usamos o mal para propagar o bem.
— Em última análise, o mal é um instrumento imperfeito do bem, seguindo o raciocínio destas pessoas.
— Mas será que é um instrumento válido? Será que não poderíamos prescindir dele, concentrando-nos em propagar o bem pelo bem? Será que não é suficiente?
— Essas questões vêm daquela época?
Sim. Milhões e milhões de anos.
— E continuam sem resposta. Pelo menos para as massas.
— É, meu amigo Watus. O bem e o mal podem ser forças antagônicas ou diferentes pontos de vista.
— Como assim?
— Digamos que um homem morra. Morrer é o mal para ele, não é?
— Justamente.
— Mas é o bem dos microrganismos e dos vegetais que se alimentarão dos seus restos mortais. Já reparou como as árvores de cemitério sempre eram as mais vistosas?
— Ainda não estou convencido.
— Digamos que você consiga um emprego; é o bem pra você, não é?
— É claro.
— Mas para aqueles outros candidatos que não conseguiram é o mal deles, não é?
— Nunca pensei nisso desta maneira. Parr, estas ideias estavam nos discos?
— também são daquela época. Apenas são convenientemente esquecidas para que se possa manipular melhor as massas.
— Vai esquecê-las também?
— O momento não é para isso. Esqueçamo-las agora e o nosso futuro será nulo. Em determinado momento no porvir serão novamente esquecidas.
— E então recomeçará o círculo...
— E vários “avatares” virão ao mundo para divulgar essas verdades, e os homens lhes darão ouvidos; então seus seguidores se enfrentarão e guerrearão tendo como estandarte a sua própria interpretação da verdade. O ciclo então recomeçará.
— E um novo planeta será necessário.
— Às vezes me pergunto se não somos uma espécie de mecanismo que não deixa que o Universo evolua.
— Isso não é meio pessimista?
— Pessimista? — riu Parr. — Watus, olhe em torno de si e verá que nenhum pessimismo seria capaz de conceber esta tragédia planetária.
— Ainda tem café? Esta discussão filosófica foi demais pra mim.
— Vamos aproveitar que é um dos últimos que beberemos em muito tempo.
— Vamos lá, Parr. — deu-lhe um tapinha nas costas. Vamos aproveitar.
Mais tarde na nave, Parr estava sentado na ponte de comando olhando para a nossa Terra no caminho do Sol em expansão; um espetáculo deprimente que o levou às lágrimas.

Bairan-Kara-Ula é uma aldeia do Tibete, que como o resto do país está sob o domínio da China; lá foram encontrados num cemitério antigo, ossadas de seres semelhantes ao homem, de seres humanos e de outros claramente hibridos. Os citados discos possuíam inscrições que foram traduzidas e contavam a história de um povo que ficou preso na Terra e deixou descendentes com os humanos do povo dropa, que ainda habita aquelas paragens, O mais é licença poética. Mais informações na internet.

Um comentário:

  1. Muito interessante. Talvez seja a sua mais criativa história. Todo um Universo de seres, cultura (não-humana) e planetas se descortina aos olhos do leitor.

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