—
Quanto tempo nós temos?
—Três
meses. Mas precisamos evacuar o planeta o quanto antes. O Sol já começa a sua
expansão e isto aqui em breve vai se tornar um verdadeiro inferno.
—
Sobrou algo para levar?
—
Não. Todos os vestígios da nossa civilização serão apagados de qualquer modo. O
próprio planeta o será.
—Ainda
bem que recolhemos amostras de todos os animais e vegetais para leva-los
conosco.
—
Veja só: estão entrando.
Como
se adivinhassem a catástrofe iminente, os animais entravam nas naves, lado a
lado, em casais, resignados a serem salvos pelos mesmos seres que os
perseguiram desde pisaram a Terra. Não houve nenhum caso de ataque de animais
durante a evacuação. Eles simplesmente passavam e se acomodavam nas naves sem
emitir qualquer som. Com o tempo os cientistas já os tratavam como animais
domésticos, tal a sua docilidade. Tigres, leões, ursos e outros ocupavam
docemente os seus lugares nas naves.
Através
do mundo, expedições os recolheram e embarcaram nos transportes que os têm
levado até a Arca II. Os vegetais seguem logo atrás em naves especiais, junto
com os bancos de sementes e de DNA, estes congelados em nitrogênio líquido. A
operação toda era seguida de perto pelos olhos zelosos dos cientistas.
—
Arnak, diga sem rodeios, há esperança para nós?
—
Watus, tudo indica que sim. Mas seria melhor se apenas os animais e vegetais sobrevivessem.
—
Você defende que não sobrevivamos como espécie?
—
Watus, o Universo é cíclico: a nossa raça emigra a outros planetas, destrói-os
e sobrevivem apenas os cientistas, que
empreendem nova emigração.
—
Não diga isso! É absurdo!
—
Não é absurdo; é fato comprovado. Eles povoam o novo planeta para que tenhamos
uma nova chance; então escondem o conhecimento dos descendentes para que estes
se desenvolvam intelectualmente. Aprendem muito, inclusive paralelamente a
findar e salvar vidas, mas dão preferência à primeira atividade.
—
Não há como parar isso?
—
Sim. A extinção. O talento para a destruição é inerente ao ser humano; parece
que há uma predisposição a isso.
—
Como pode saber dessas coisas? Está especulando novamente?
—
Eu bem sei que especular é um talento meu, mas dessa vez eu tenho provas. Lembra
da lenda de Atlântida?
— É
claro. Quem não ouviu essa lenda?
—
Perdoe-me por discordar de você. Ela foi encontrada há um ano. Nela, estavam
arquivos em forma de disco, semelhantes aos de Bairan-Kara-Ula*; eles são
compostos de uma liga desconhecida, que bombardeados com micro-ondas produzem
uma perturbação da luz visível que se transforma em imagens, enquanto a
vibração dos discos nos dá o som. Lá estavam registradas as variadas fases da
nossa espécie através do Cosmo. De planeta em planeta, a nossa evolução é a
mesma. É como se fôssemos programados para isso.
—
São aqueles discos ali?
—
Não. Aqueles são os novos, com a história da civilização atual; aprendemos a fabricá-los
e gravá-los.
— O
que me intriga é que todos tenham chegado até nós.
—
São indestrutíveis. A liga que os compõe uma vez que esfria emite nêutrons tornando-se
um novo metal, o material mais estável do Universo. Nada pode destruí-los, nem
mesmo a explosão de uma supernova.
Como
sabe disso?
—
Informação dos discos. Sabe-se lá como, eles fizeram experimentos e descobriram
isso. Sabendo que chegaríamos a eles, gravaram as informações para aprendermos
a fabricá-los.
—
Lá eles dizem como surgimos no Universo?
—
Somos quase tão antigos quanto ele. O primeiro planeta a se solidificar após o Big Bang gerou vida e nós fomos a coroa da criação.
—
Parece linguagem bíblica.
— E
é. Os conceitos contidos na Bíblia surgiram conosco. Apenas nos lembramos deles,
criamos uma nova religião para difundi-los e em breve nos surpreendemos matando
e torturando para impô-los aos outros. Curioso como usamos o mal para propagar
o bem.
—
Em última análise, o mal é um instrumento imperfeito do bem, seguindo o raciocínio
destas pessoas.
—
Mas será que é um instrumento válido? Será que não poderíamos prescindir dele,
concentrando-nos em propagar o bem pelo bem? Será que não é suficiente?
—
Essas questões vêm daquela época?
Sim.
Milhões e milhões de anos.
— E
continuam sem resposta. Pelo menos para as massas.
—
É, meu amigo Watus. O bem e o mal podem ser forças antagônicas ou diferentes
pontos de vista.
—
Como assim?
—
Digamos que um homem morra. Morrer é o mal para ele, não é?
—
Justamente.
—
Mas é o bem dos microrganismos e dos vegetais que se alimentarão dos seus restos
mortais. Já reparou como as árvores de cemitério sempre eram as mais vistosas?
—
Ainda não estou convencido.
—
Digamos que você consiga um emprego; é o bem pra você, não é?
— É
claro.
—
Mas para aqueles outros candidatos que não conseguiram é o mal deles, não é?
—
Nunca pensei nisso desta maneira. Parr, estas ideias estavam nos discos?
—
também são daquela época. Apenas são convenientemente esquecidas para que se
possa manipular melhor as massas.
—
Vai esquecê-las também?
— O
momento não é para isso. Esqueçamo-las agora e o nosso futuro será nulo. Em
determinado momento no porvir serão novamente esquecidas.
— E
então recomeçará o círculo...
— E
vários “avatares” virão ao mundo para divulgar essas verdades, e os homens lhes
darão ouvidos; então seus seguidores se enfrentarão e guerrearão tendo como estandarte
a sua própria interpretação da verdade. O ciclo então recomeçará.
— E
um novo planeta será necessário.
—
Às vezes me pergunto se não somos uma espécie de mecanismo que não deixa que o
Universo evolua.
—
Isso não é meio pessimista?
—
Pessimista? — riu Parr. — Watus, olhe em torno de si e verá que nenhum pessimismo
seria capaz de conceber esta tragédia planetária.
—
Ainda tem café? Esta discussão filosófica foi demais pra mim.
—
Vamos aproveitar que é um dos últimos que beberemos em muito tempo.
—
Vamos lá, Parr. — deu-lhe um tapinha nas costas. Vamos aproveitar.
Mais
tarde na nave, Parr estava sentado na ponte de comando olhando para a nossa
Terra no caminho do Sol em expansão; um espetáculo deprimente que o levou às lágrimas.
Bairan-Kara-Ula é uma aldeia do Tibete, que como o resto do país está sob o domínio da China; lá foram encontrados num cemitério antigo, ossadas de seres semelhantes ao homem, de seres humanos e de outros claramente hibridos. Os citados discos possuíam inscrições que foram traduzidas e contavam a história de um povo que ficou preso na Terra e deixou descendentes com os humanos do povo dropa, que ainda habita aquelas paragens, O mais é licença poética. Mais informações na internet.
Muito interessante. Talvez seja a sua mais criativa história. Todo um Universo de seres, cultura (não-humana) e planetas se descortina aos olhos do leitor.
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