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sábado, 30 de junho de 2012

O Canto do Cisne de Amarícia


  Saio para o planeta, certo do que encontrarei: desolação. A escotilha se fecha atrás de mim, emitindo o seu silvo característico e causando o estremecimento esperado. Se nada se houvesse passado, uma estrutura dessas e uma porta tão pesadas não seriam necessárias. Mas hoje, se não fossem elas, a vida aqui seria impossível.
  Várias vezes me perguntei: por que fizemos isto? Arrogância e orgulho são possíveis, ambição e intolerância são certas. Amarícia foi um verdadeiro paraíso, florestas a cobriam, animais belíssimos a habitavam, todos eles ímpares no universo e aqui estavam para quem quisesse testemunhar as suas maravilhas. Tudo perdido. Várias espécies jamais catalogadas, assim como as que o foram, hoje estão irremediavelmente perdidas. São passado nas lembranças do seu último habitante, eu.
  Enquanto aguardo o cargueiro que me levará para a sede da confederação galáctica onde serei exibido como o último espécime de um animal extinto, resolvi passear pelo meu finado planeta. Ando pelas ruínas com moderação, pois a cada elevação há um novo espetáculo a se descortinar. Amarícia, aquela que foi chamada de “Joia do Universo”, atrevo-me a denominá-la “Cloaca do Universo”, tamanha a quantidade de sujeira física e moral que aqui se derramou. É particularmente triste para mim, pois aqui nasci e cresci, mas não pretendo morrer. Por cinco longos anos mantive-me em reclusão para que não fosse encontrado, mas um sinaleiro que disparei acidentalmente me denunciou. Não houve jeito de disfarçá-lo, pois os scanners de vida foram para cá dirigidos, e como eu era a única forma de vida restante, o universo teve conhecimento de que Amarícia não estava totalmente morta.
  Não sei como me deixei convencer de que teria uma vida melhor lá fora, como poderia voltar a encarar outros seres que não os meus compatriotas? As limitações de ordem estética me seriam ferozes adversárias. Nós amaricianos temos uma dobra de pele na testa que se assemelha a uma tromba. Vítimas de escárnio de várias outras espécies lá fora, fechamo-nos em um nacionalismo exagerado que foi se transmutando em orgulho, xenofobia, agressividade e por fim, um espírito expansionista que eliminou as nossas nações, a natureza e o planeta em si. Tudo isso aconteceu por causa da terrível e hedionda probóscide, que tanto mal causou às nossas crianças e até aos adultos. Nossos estudantes eram discriminados nos outros planetas da Federação, nossas crianças tinham sempre apelidos jocosos como “elefante”, “esguicho” ou “snorkel”, não apenas no meio das outras crianças, mas também no meio dos adultos.  Seria mais que natural que desenvolvêssemos o medo de contato com outros seres.
  Mas o medo se estendeu aos nossos semelhantes e logo se converteu em ódio. O que começou com um constrangimento ilegal e grosseiro se tornou a semente do porvir. Crianças praticamente nasciam com o ódio herdado dos seus pais por outras espécies e mesmo pela nossa própria; foi quando começaram os “cídios”: parricídios, fratricídios, matricídios, homicídios, suicídios e finalmente genocídios.
  O nosso planeta, onde era um crime hediondo destruir a natureza qualquer que fosse o motivo, tornou-se uma espiral terrível, um verdadeiro buraco negro que tragava vidas como se uma mágica as levasse para um lugar secreto; esses crimes que jamais tiveram solução tornaram-se banais a ponto de não merecerem nem ao menos uma menção nos noticiários.
  Então mergulhamos no expansionismo, buscamos aplacar o nosso sentimento de inferioridade dominando outros planetas pela força, mas isso se virou contra nós: começaram a nos mover guerra, determinados a exterminar-nos do seu convívio. Foi nessa época que começamos a ser conhecidos como “A Praga do Universo”.
  O cargueiro chegou. Há muitos anos, essa chegada seria confundida com uma expedição de conquista, mas hoje senão extemporânea, seria pelo menos inútil: conquistar uma poça de lodo e cinzas não figuraria bem na biografia de nenhum general ou presidente. Amarícia é um ponto negro num espaço já demasiadamente negro; um dejeto flutuante que nem de muito longe reflete a opulência e a “glória” do seu passado. É curioso falar em glória quando aqui ela foi tão deturpada a ponto de alguém ser festejado por arrasar cidades inteiras ou matar a própria mãe.
  O ansioso e amedrontado comandante, secundado por pelo menos uma dezena de soldados abordou-me dizendo:
  — Nome e posto, por favor.
 — Poupe o seu tempo, comandante. Sou civil.
  As minhas palavras desvaneceram os seus receios e deram lugar a uma estranheza sem par. Ele era humano, acostumado a entrincheirar-se em vários pontos do universo contra nós, mas nunca em toda a sua carreira militar havia visto um amariciano civil.
  — Não existem amaricianos civis. A sua espécie se organiza socialmente dentro de um regime militar. –  retrucou.
  — Esqueça os seus conhecimentos de academia, comandante. Posso lhe assegurar que sou civil, mesmo por que forçosamente assim teria me tornado, uma vez que no presente momento não há mais exército algum aqui para se pertencer. Somente ruínas e matéria que não se decompõe por não terem restado nem mesmo bactérias para fazer a  decomposição.
  — Acompanhe-me até o cargueiro, por favor, disse ele, girando nos calcanhares e dirigindo-se ao veículo.
 Aquela atitude que tanto me envergonhava na minha espécie me era estranhamente aceitável vinda de um humano.
 Enquanto viajávamos, eu me perguntava sobre o que aconteceria agora. Será que eles me matariam, ou será que eu seria o bichinho de zoológico que eu esperava me tornar?
  — Como pode um da sua espécie ser civil? — inquiriu-me o oficial.
 — Eu vivi muitos anos em outros planetas como embaixador antes da loucura militarista tomar conta do meu planeta. Expulso de cada um deles quando se declarava guerra, sempre tinha um novo destino antes que pusesse os pés na minha terra querida. Não testemunhei tudo que aconteceu por lá. Decidi que deixaria o meu exílio voluntário e retornaria ao meu planeta para lá morrer, exposto às radiações mortais que a guerra nos legou. Mas não tive coragem de fazê-lo. Bastaria uma escotilha esquecida aberta, uma descontaminação não feita num retorno, para que tudo se consumasse. Decidi que deixaria a minha morte a cargo do acaso, de um esquecimento mortal.
 — Então não sabia que eles se eliminaram?
   — Somente tive conhecimento do que sucedeu pelos arquivos do governo, que acessei muito tempo depois de retornar.
  — Guarde as suas forças para quando chegarmos à Terra, senhor. Terá muitos compromissos por lá. Descanse. — disse-me o comandante, com um ar quase paternal.


 
     Devo ter dormido por uns quatro dias, acordando à força quando já me encontrava em aposentos mal iluminados entre lençóis macios e perfumados, o que me fazia pensar sobre que espécie de seres seriam os humanos. Tratavam com todo aquele desvelo uma raça que quase os exterminou do universo? Por quê?
     A porta se abriu e um homem dirigiu-se a mim. Era negro, com uma idade avançada, parecia-me vagamente familiar. Seu olhar perscrutou-me de alto a baixo. Quando falou, reconheci de imediato a sua voz: nenhuma luz faria meus olhos reconhecerem melhor a imagem de alguém do que os meus ouvidos reconheceram aquela voz. Era ele: o meu falecido amigo Frank Loomis, o cientista que evitou em missão diplomática ao meu planeta, que a nossa destruição fosse perpetrada mais cedo, pelo menos dez anos antes. Ele foi assassinado no palácio presidencial pouco antes da guerra final. Como pode ser? É impossível! Balbuciei alguma coisa:
  — Frank, você está morto! Eu também devo estar, por isso o estou vendo. — Disse antes que ele me interrompesse:
  — Lundre, meu amigo! Fico feliz em tê-lo encontrado. Nunca perdi a esperança, embora todos me dissessem que era inútil a minha procura. Eu não estava lá realmente. Havia um projeto do nosso governo que produziu clones controlados à distância que se comportavam exatamente como se fôssemos nós mesmos. Mataram o meu clone, mas eu continuei vivo. Busquei por você, certo de que o encontraria. Bem vindo!
  — É tarde agora para mim, amigo. A minha espécie já não existe mais. Eu sou o último amariciano vivo. Queria continuar assim e encontrar a morte em meu planeta natal. Estou muito triste desde a guerra.
  — Tenho uma surpresa para você, amigo. A sua espécie não está extinta. Não mais. Veja isso. Cer!
     A porta se abriu e vi, andando elegantemente, a fêmea que vira uma vez rumando para a Terra, no espaçoporto de Trimnos. Ela me parecera muito educada e diferente do meu povo. Cheguei mesmo a suspeitar que fosse uma mestiça, mas qual espécie seria capaz de produzir híbridos conosco, devido à nossa forma de reprodução tão peculiar? Afastada a ideia, deixei que o esquecimento levasse aquela cena, pois o que mais havia em minha cabeça eram problemas e preocupações. Nunca mais pensei ou me recordei disso até agora, até esse encontro singular: os dois últimos exemplares de uma espécie quase extinta se defrontavam e se olhavam totalmente curiosos. Ela se aproximou de mim delicadamente, roçou o seu rosto no meu aspirando o ar com sensualidade como se quisesse me sorver juntamente com o ar em torno. Então me tocou nos ombros, me acariciou o rosto e pôs a mão no topo da minha cabeça, o sinal de aceitação do macho pela fêmea. Neste momento disse, com a voz embargada:
  — Está no período, professor. Eu o quero.
  "O período", era como chamávamos a fase de vida sexual ativa na minha espécie.
  Caminhando com dificuldade, retirou-se da sala, pois não seria agradável, mesmo para um cientista, que presenciasse um acasalamento amariciano.
  — Fra (assim eu o chamava, seguindo a costume do meu povo de reduzir todos os nomes a três letras, herança da nossa língua ancestral, que assim construía o seu vocativo) venha cá. — disse eu, a que ele atendeu prontamente, como sempre fazia com os seus amigos.
  — O que foi Lun? — disse ele, demonstrando que absorvera o nosso costume.
  — O que você pretende com isso? — inquiri curioso e amedrontado.
     — Recompor a sua espécie, em bases mais humanas. — curioso ele utilizar aquela palavra que eu sabia querer dizer suave, igualitário, pacífico, mas que tem uma curiosa antítese no fato do ser humano só perder em potencial destrutivo para a minha própria espécie. Eles sempre a utilizavam quando queriam dizer que uma maneira era melhor do que outra, mas na realidade o conceito era completamente dissociado da realidade dos fatos.
  — Ela está pronta. Você a quer? Você a aceita? Ela quer o desafio, só falta a sua aquiescência para começarmos o processo.
  — Fra, você terá problemas com o governo da Terra. Você sabe que a minha espécie não se prende a valores morais como parentesco, e o acasalamento entre parentes é frequente e mesmo quase exclusividade. Neste caso então, que não há mais outros indivíduos para o acasalamento, seremos forçados a isso.
     — O governo está resolvido a passar por cima destes impedimentos em nome da preservação. Vocês poderão ter quantos filhos quiserem e se acasalar com eles e eles entre si sem medo.
     — Temo que viver aqui neste planeta desencadeie o processo que nos levou à destruição novamente. Os seres humanos são historicamente culpados dos mais atrozes atos de preconceito e provavelmente o serão novamente.
  — Não tema. Temos um planeta recém-descoberto que se encaixa plenamente nos seus padrões e estaremos sempre perto para ajudar quando for necessário. A minha equipe foi escolhida pessoalmente por mim e representa a parcela mais abnegada da espécie humana. Tenho certeza de que vocês se darão bem.
  — Tem certeza, Fra? — a esperança mais uma vez me invadiu, como não via há muitos anos.
     — Somente nós teremos contato com vocês. Estarão seguros.
     Apertei-lhe a mão confiante e esperei que se retirasse para então ver a fêmea ansiosa entrar na sala e como uma serpente deslizar até mim. Repetiu o ritual que era de costume, e com um gritinho, postou-se ao meu lado no catre.
     Estremeci quando me abraçou e abrindo-me a boca pôs a sua sobre a minha para o ato. O que os seres humanos chamariam de beijo era na realidade a nossa relação sexual, sendo bem menos chocante nos movimentos do que a deles. Apenas um detalhe era chocante: a perda de uma quantidade de sangue que para um ser humano seria a morte, para nós era um indicativo de que o ato cumprira o seu papel.
     Ela inseriu a sua língua em minha boca em busca da minha língua, para trazê-la para a sua. Quando a encontrou, veio delicadamente acariciando-a e puxando para fora, até que finalmente as nossas línguas adentraram a sua boca, rumando para os seus órgãos sexuais pelo Tubo de Prem (Prembunid), o duto que ligava a boca aos órgãos sexuais. Lá depositei o meu gameta, e terminado o ato, descansamos para que ela pudesse ser fecundada. Adormeci por horas, acordado apenas pela sua mão carinhosa que me dava pequenos e agradáveis beliscões na pele (o carinho amariciano).
  — Você acredita que seja necessária uma segunda tentativa? —perguntei.
  — Não. O seu gameta está morto. Você é infértil. Não acredito que haja outro vivo dentro de você. — disse em tom grave.
  Se eu fosse humano, teria ido às lágrimas: meu povo tinha um pronunciado controle das emoções (as boas, ao menos).
  — Então o nosso destino é mesmo desaparecer do Cosmos. Há uma fêmea pronta para o acasalamento, mas não há um macho capaz de fecundá-la. A nossa espécie acabou. Nem ao menos existe outro macho vivo para que eu tome o seu aparelho reprodutor e o faça meu. É o fim.


 
  No dia seguinte recebi a visita de Fra, dizendo que Cer (Certa era o seu nome) havia gostado de mim e partiria de bom grado comigo para o planeta. Embarcamos então com a equipe na nave que nos levaria a ele, forçando sorrisos (mais uma coisa que aprendemos com os humanos). Estranhei uma enorme valise que ela carregava, mas não toquei no assunto, distraído pela movimentação.
  Ela se virou e segredou-me ao ouvido:
  — Estou feliz por viver o resto dos meus dias com você.
  — Presa em um planeta selvagem com um macho infértil para o resto da vida? Está brincando comigo.
  Ela deu de ombros, outra coisa que aprendemos com os humanos, sorriu e virou-se para o outro lado. Dormiu até chegarmos, quando saltou do assento como um animal. Puxou-me direto até os nossos aposentos, enquanto me acarinhava e sorria sinceramente. Estava feliz e eu nem desconfiei por que. Quando puseram as malas e a enorme valise no quarto, ela rapidamente os despachou, fechando a porta.
  — Por que toda essa felicidade? Chegamos à nossa prisão eterna e você está feliz? Não conviveu demais com os humanos? Loucura não afeta os amaricianos.
  Então ela pegou a valise e abriu: antes que eu pudesse ver o seu conteúdo, o cheiro agradabilíssimo invadiu as minhas narinas: eram ovos, trinta e seis deles, e com uma cor ótima. Qualquer amariciano reconheceria aquele perfume, mesmo que jamais o houvesse sentido: era o cheiro da vida recomeçando. Eu os acariciei cuidadosamente, sorrindo para ela, que me olhava curiosa por julgar que eu não era capaz de sorrir verdadeiramente. Então o seu próprio sorriso voltou mais forte e brilhante do que nunca.
  — Você me desculpa por mentir para você?
   — Foi mesmo uma mentira?
 — Não, foi uma proteção contra qualquer espião infiltrado. Conheço todos os homens que vieram conosco. Convivo com eles desde que vim para a Terra naquele dia que lhe encontrei no espaçoporto. São confiáveis e estão realmente dispostos a nos ajudar a recomeçar. Precisamos esconder os ovos antes que venha uma nova postura, quando daremos conhecimento a eles. Mas esta será cuidadosamente protegida de olhos estranhos.
  — Esta prudência toda você também aprendeu com as mulheres humanas?
   — Meu pai era humano. Sou mestiça.
 Aquela declaração me pegou de surpresa. Havia então uma esperança para nós? Híbridos humano-amaricianos encheriam o cosmos? Então me surgiu uma dúvida: como podem híbridos ter filhotes férteis?
 — Sei o que está pensando. Provavelmente em um tempo remoto o cruzamento entre as espécies tenha sido frequente, pois descobrimos que humanos e amaricianos são aparentados. Talvez isso tenha garantido que chegássemos aos dias de hoje, tanto nós quanto eles.
  — Mas um humano jamais teria se sujeitado a se unir a outra raça e ter filhotes diferentes dele!
  — Meu pai me ensinou o que de melhor havia na condição humana: os doces sentimentos, entre eles o supremo: o amor. Por ele os homens são capazes de qualquer coisa. Meu pai dizia que o amor, depois do ser que criou o universo, era a força mais poderosa que existia. Foi por amor que aceitei unir-me a você. Eu o amei desde aquele dia em que o vi no espaçoporto. Estava desanimada com a possibilidade de ter que viver com um macho desconhecido, mas quando vi as suas imagens aceitei prontamente. Fra já sabia que nos conhecíamos, e ficou feliz ao me dar as imagens.
  Olhei para ela e desatei uma crise de choro como jamais uma amariciano experimentou, mas que agora seria cada vez mais frequente: não um choro de tristeza como impusemos às outras espécies, mas de felicidade.

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