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sábado, 30 de junho de 2012

Nick

Entretido com os soldadinhos de chumbo, Nick nem se apercebia da movimentação da casa. Passara a noite velando o sono de Gwen, sua cadela de estimação. Era uma collie já idosa, herança de seu irmão mais velho, Henry, desaparecido na guerra. Foi tudo o que restou dele, expulso de casa em virtude de sua desobediência e insolência. O pai, um inglês já idoso e muito conservador, quis mandá-lo cuidar dos seus negócios na Índia para afastá-lo do exército; Henry, por sua vez, queria ser militar a todo custo. Então discutiram muito e o rapaz disse palavras duras, às quais o pai respondeu com a ordem de que ele esquecesse o endereço daquela casa. Henry então se alistou e a guerra foi declarada logo após. Mandou uma carta para a mãe revelando que iria ao front tão logo terminasse o treinamento.
James permaneceu indiferente no início ao sofrimento da esposa, mas logo caiu em si. Daquele momento em diante, jamais teve saúde novamente: entrou numa espiral de doenças e depressão que finalmente o levou à morte, seis meses após a declaração de guerra.
Tudo isso já seria suficiente para arrasar uma criança, mas Nick segurou-se como pôde. A abundância de brinquedos deu-lhe mais coisas em que pensar. Além disso, havia Gwen. Mas e agora que ela estava morrendo, como seria a sua reação?
A mãe continuava ali, de preto como toda boa viúva, observando as brincadeiras de Nick, procurando o segredo de tanta abnegação.
Agora que Martha não tinha mais marido, os pretendentes, chacais que lhe cobriam de presentes, gracejos e mimos, multiplicavam-se. Não tinham o menor respeito pelo seu luto.
Martha era uma bonita mulher, alta, cabelos negros cacheados, olhos azuis e rosto fino como uma estátua grega. O corpo era escultural e suas formas várias loucuras causaram, como a do rapaz que se lançou ao Tâmisa de um pequeno barco, pois não conseguira conquistá-la. Ela era trinta e cinco anos mais jovem que o marido, mas eternamente apaixonada por ele. No princípio, casara-se porque acreditava que sendo mulher, teria dificuldades em administrar a herança do pai. Lembrava-se como se fosse hoje dos olhos de um azul penetrante que inicialmente a viam como uma bela órfã, mas que em breve lhe dedicariam o mais terno amor.
Em breve também ela o amaria. Aquele homem mais rico que ela se arriscou ao maldizer e escárnio por se casar com uma mulher mais jovem, somente para salvá-la de perder toda a sua fortuna, que passaria automaticamente à administração do tio, Eidar Fury, um redemoinho onde muitas fortunas naufragaram inapelavelmente.
Mas agora James se fora e o último bastião de tranquilidade da família, a cadela Gwen, também ir-se-ia.
Nick, aparentemente indiferente a tudo, brincava. Martha observava absorta a atitude do filho, sem perceber que ele havia separado do grupo de soldadinhos três soldados e um oficial, e agora um cavalo. Quando ele derrubou o cavalo com o dedo ela prestou mais atenção ao pequeno grupo e percebeu que agora apenas dois restavam de pé. Os outros foram envolvidos cuidadosamente em pedaços de papel e colocados à parte, cobertos com o edredom, dobrado milimetricamente para isso.
Subitamente, Nick dirigiu o olhar para ela, que ficou incomodada com o fato. Diante da imobilidade do filho ela se sentia cada vez mais angustiada, mas sem forças para desviar o olhar.
— Agora só nós dois ficamos, não é mamãe? Você também vai embora? — perguntou, os olhos marejados de lágrimas.
Aquilo pareceu uma ordem para abrir as comportas de uma represa: todas as lágrimas que ela não conseguira derramar agora eram uma torrente que se espalhava dos olhos à blusa, formando uma mancha de molhado como uma gravata num tom mais escuro do preto da roupa. Teve que escolher entre agarrar e beijar o filho e atender ao chamado do mordomo que anunciava a chegada de visitas.
Entrou na sala e estacou lívida como um cadáver, como houvesse visto um fantasma. Ali à sua frente estava barbudo e um pouco envelhecido, o seu filho Henry, chorando abraçado a Gwen, que lenta e inexoravelmente recobrava as forças. Mortimer, o jardineiro bonachão, que estava se preparando para enterrar o animal, esfregava os olhos sem conseguir acreditar no que seus olhos viam: Gwen miraculosamente recusava-se a morrer, e ainda levantava-se para abraçar à moda dos cães o retornado dono.
A mãe não se conteve e correu para os braços do filho, abraçando-o, beijando-o, querendo desesperadamente sentar-se e deitar-lhe a cabeça em seu colo para acarinhá-lo eternamente, para que ele jamais se separasse novamente dela.
Henry chorava de contentamento de rever a mãe, ao mesmo tempo em que ria das atitudes de mãe que ela tomava com uma criança que agora só existia na sua mente.
Dado como morto, Henry voltou.
Nick estava em pé, pondo as mãos no irmão e na mão e dizendo para si mesmo:
— Calma, agora tudo vai ficar bem.

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