quarta-feira, 10 de maio de 2017
terça-feira, 9 de maio de 2017
O Que Restou
Foi o que restou:
Lábios que não tocamos,
Corpos que não envolvemos
Lençóis que não sujamos.
Noites que não compartilhamos
Estrelas que não contamos
Declarações que fiz
E não recebi.
Um presente de distância
Um futuro de ausência
Um amor que vivi
Mas somente eu senti.
segunda-feira, 8 de maio de 2017
Hoje posto o primeiro capítulo de um romance que estou escrevendo. Chama-se: O Santo Diário.
Parte I
Parte I
Estes são os meus escritos, que narram minha vida e o meu ministério. Ainda não decidi se revelá-los-ei, então até lá ficarão escondidos em local seguro. Dividi-los-ei em partes para tornar a leitura mais fácil.
Sou Yeshua Ben Yussef, “O Messias” como me chamam meus seguidores, ou o "Grande Taumaturgo", como me chamam os meus conterrâneos que não me suportam. Minha mãe se chama Miriam: era uma linda jovem que servia ao Senhor como donzela do Templo, mas meus avós desejavam que ela se casasse. Seus lindos cabelos castanhos eram cuidadosamente cobertos com o lenço para que apenas Deus os pudesse ver. Era de baixa estatura, de compleição delicada, mas tinha uma força que pude comprovar mais tarde. Sua tez era morena, mas estranhamente imaculada e sedosa como se tivesse sido sempre untada com os melhores óleos do Egito. Camponesa de origem nobre, mas caída na pobreza, estava prometida em casamento a Yussef, bem mais velho e pai de vários filhos; ele era carpinteiro, um homem com a extraordinária capacidade de transformar o belo cedro do Monte Líbano em móveis finos, o que lhe garantia bons lucros com as encomendas das pessoas mais abastadas. Seus cabelos que já estavam bem tingidos pelo branco dos anos e eram longos, e em sua homenagem deixei que os meus crescessem também, quando iniciei o meu ministério. Era forte e musculoso, de aparência surpreendentemente jovem e, a não ser pelas cãs, ninguém seria capaz de imaginar a sua idade.
Eis que antes de se casarem e viverem juntos, minha mãe ficou grávida pela ação do Espírito Santo durante o sono, e quando se levantou sem demora foi até ele para participar-lhe da boa nova, o que causou uma reação de desconfiança. Yussuf era justo: não queria denunciá-la, o que seria a sua morte certa, e por amor àquela jovem donzela pensava em deixá-la, sem que ninguém soubesse. Sob o pretexto de trabalhar mais perto de Jerusalém, ele a deixaria aos cuidados de meus avós maternos e zelaria pelo seu sustento à distância, pois não seria capaz de abandoná-la de verdade.
Enquanto pensava nisso, o Anjo do Senhor lhe apareceu em sonho, e disse: “Yussuf, filho de David, não tenha medo de receber Miriam como esposa, porque ela concebeu pela ação do Espírito Santo; ela dará à luz um filho, e tu dar-lhe-ás o nome de Jesus, pois ele salvará o teu povo dos seus pecados”. Tudo isso aconteceu para se cumprir o que o Senhor havia dito pelo profeta: "Vejam: a virgem conceberá, e dará à luz um filho. Ele será chamado pelo nome de Emanuel, que quer dizer: Deus está conosco.”.
Quando acordou, meu pai fez conforme o Anjo do Senhor havia mandado: casaram-se e levou minha mãe para casa; e eis que sem conhecê-la como mulher, aguardou que desse à luz um filho.
Chegando a época do recenseamento ordenado por Quirino, o governador da Província da Síria, todos foram intimados a retornarem às suas regiões de origem e meu pai apressou-se a retornar à sua, a cidade de Beth-ehelem, na Judéia. Bem próximo da cidade, tendo a minha mãe sentido as dores do parto iminente, procuraram uma estalagem em que pudessem dormir e se abrigar do frio intenso para que ela me desse à luz.
Eu, Jesus de Nazaré, da Casa de Davi, nasci não em um berço de ouro, como esperavam os meus conterrâneos judeus, mas em uma simples manjedoura, um lugar onde criaturas inocentes faziam o seu pasto, talvez um símbolo do que o povo faria comigo em nome das podres instituições. Estavam presentes um jumento e uma vaca que me aqueceram com o seu hálito quente. Seguindo uma estrela que navegava nos céus, pastores chegaram para me adorar e espalharam a notícia pela cidade, pelo menos para os poucos que os ouviram. Pastores não eram bem vistos naquela época, o que não mudou muito até hoje. Então meu pai me deu o nome de Jesus, receoso de que meu nome me denunciasse.
Eis então que alguns magos do Oriente chegaram a Jerusalém, e perguntaram: "Onde está o recém-nascido rei dos judeus? Nós vimos a estrela que o anunciava no Oriente, e viemos para lhe prestar homenagem.”.
Ao saber disso, o rei Herodes ficou alarmado, assim como toda a cidade de Jerusalém.
Ele então reuniu todos os chefes dos sacerdotes e os doutores da Lei, e lhes perguntou onde o Messias deveria nascer. Eles responderam: “Em Belém, na Judéia, porque assim está escrito por meio do profeta: ‘E você, Belém, terra de Judá, não é de modo algum a menor entre as principais cidades da região, porque de você sairá um Chefe, que vai apascentar Israel, meu povo’ ”.
Então Herodes chamou secretamente os magos e investigou junto a eles sobre o tempo exato em que a estrela havia aparecido.
Depois, mandou-os a Belém, dizendo: "Vão, e procurem obter informações exatas sobre o menino. E me avisem quando o encontrarem, para que também eu vá prestar-lhe homenagem.”.
Depois que ouviram o rei, eles partiram. E a estrela que tinham visto no Oriente ia adiante deles, até que parou sobre o lugar onde estávamos.
Ao verem de novo a estrela, os magos ficaram radiantes de alegria, seguiram-na e encontraram uma estalagem, cujo porão, como é o costume, abrigava os animais durante o inverno.
Quando entraram na casa, perguntaram ao estalajadeiro se lá havia uma mulher grávida e seu marido, que lhes respondeu que nos dera o porão, pois não havia mais vagas. Qual não foi a sua alegria quando me viram com a minha mãe! Ajoelharam-se diante de mim e me prestaram homenagens. Depois, abriram seus cofres, e me ofereceram presentes: ouro, incenso e mirra; disseram à minha mãe que o ouro representava todas as riquezas do mundo para o Rei; o incenso significava a minha origem divina, e a mirra por representar a imortalidade.
Dormiram no chão no pouco espaço que sobrara, e nos deixaram uma epístola relatando que haviam sido avisados em sonho para não voltarem a Herodes, partindo para a sua região, seguindo por outro caminho. Quando acordamos no dia seguinte, encontramos a epístola, mas não a eles.
Então naquela noite o Anjo do Senhor apareceu em sonho ao meu pai e lhe disse: "Levanta-te, pega o menino e a mãe, e foge para o Egito! Fica lá até que eu avise, porque Herodes vai procurar o menino para matá-lo”.
Antes que o pior acontecesse comigo, meus pais fugiram para o Egito buscando salvar-me, instruídos por um anjo que apareceu à minha mãe. Enquanto meu pai foi à pé nos guiando, viajamos minha mãe e eu no lombo de um jumento, para o Egito, onde um grupo de sacerdotes exilado havia fundado um templo na ilha de Elefantina, no Nilo.
Lá ficamos até a morte de Herodes, para se cumprir o que o Meu Pai havia dito por meio do profeta: "Do Egito chamei o meu filho”.
Quando Herodes percebeu que os magos o haviam enganado, ficou furioso. Ordenou então, calculando a idade pelo que tinha averiguado dos magos, que todas as crianças de Belém e de todo o território ao redor de dois anos para baixo, fossem massacradas, e todos os que tentassem impedir tivessem o mesmo destino. Assim, descobri cedo a intolerância dos homens.
Então se cumpriu o que fora dito pelo profeta Jeremias: “Ouviu-se um grito em Ramá, choro e grande lamento: é Raquel que chora seus filhos, e não quer ser consolada, porque eles não existem mais”.
Em Belém, teria sido tolerado até me tornar adulto, não fossem as pequenas rusgas entre meu pai e os carpinteiros locais, que o invejavam pelo seu talento com a madeira. Então a minha tendência inata para falar demais se encarregou de lhes dar armas para se vingarem de nós. Denunciaram meu pai às autoridades como fomentador de uma rebelião e ele precisou recorrer ao seu amigo José de Arimateia para que nos conseguisse um esconderijo. José havia me ouvido falar de amor, fé e perdão, palavras impensáveis nestes nossos tempos em que hipocrisia, traição e martírio são as palavras de ordem, se encantando com o que ouvira; então lhe disse que tinha amigos em um mosteiro essênio, e se encarregaria de me asilar por lá. Meu pai foi para a Galileia, enquanto eu atravessei o deserto para me esconder. É estranho como o deserto parece-me um símbolo. Precisei atravessá-lo três vezes: para sobreviver, para ser instruído e para poder iniciar a minha missão. Matatias, o criado de José, me acompanhou.
Lembro-me de quando ingressei no mosteiro essênio: após a cruciante travessia do deserto, era noite quando vi ao longe a silhueta da construção que seria a minha casa. Estava escuro, noite de lua nova. Postei-me no umbral para solicitar a permissão para a minha entrada.
O irmão sentinela Isaías veio para me atender, a voz rouca emergindo dos fios de barba grisalhos para me interpelar:
— Quem vem aos essênios? Se fores judeu sejas bem-vindo; se não, sejas ainda mais.
Vislumbrei aquele sujeito pequeno, da minha altura, altura de um menino de treze anos: sem dúvida ele não deveria ser muito respeitado lá fora, onde a força mandava no mundo, força essa que não parecia ser a sua principal característica. Entretanto, escorpiões são pequenos, mas podem matar um homem. A sua figura curvada pelo peso dos anos e vestida com uma túnica puída e amarelada despertou em mim uma incrível sensação de tranquilidade, e assim descobri que ali poderia ser um lugar agradável para viver.
Ao mesmo tempo, observei que seu discurso de aceitação dos gentios seria perigoso em qualquer lugar que não fosse aquele, mas ali estaria seguro.
— Meu nome é Jesus, filho de José, carpinteiro da Galileia, da casa de Davi. — disse eu, ligeiramente embaraçado com a visão do homúnculo atarracado e de pele crestada pelo sol.
— Jesus? Onde já ouvi este nome?— disse ele, fazendo uma careta horrível, onde o dedo na vertical cruzando totalmente os lábios parecia o tronco de um arbusto, aparente apenas por causa da refeição de alguma ovelha; além disso, ele virava a cabeça para os lados como um pássaro. — Oh! Já me lembro! É tu aquele que nos foi enviado para instrução na Doutrina da Verdade! Bendito seja aquele que vem em nome do Senhor! Entra, entra! Tens fome? Como chegaste até aqui? Vieste sozinho?
As perguntas derramavam-se como vinho em uma cratera; os braços movimentavam-se como se me admoestasse severamente. Qualquer um que visse a cena mas não ouvisse as suas palavras acreditaria nisso. Eu me perguntava que tipo de vida teria a partir dali e se seria útil à comunidade, uma vez que não fui capaz de aprender o ofício de carpinteiro, ainda que este por si só não me garantisse a sobrevivência junto ao meu povo. Eu não era meu pai terreno, e o mundo assegurava-se de me lembrar disso a cada momento. Ainda hoje, não ser capaz de aprender a profissão da família pode ser fatal para um menino, que geralmente herda a oficina de artesão e deve sustentar os irmãos e irmãs mais jovens e a mãe na ausência do pai. Meus meios-irmãos eram muito mais velhos, e já casados não tinham muito contato conosco. Infelizmente, mais tarde em minha vida, a arte do meu pai morreria com ele.
Adentramos a um recinto onde todos faziam comumente a suas refeições e após uma refeição frugal (como descobri mais tarde serem todas por ali) que me recuperou da passagem noturna pelo deserto, preparava-me para dormir quando alguém entrou em minha cela. Levantei-me de um salto, afinal estava em perigo, o que era a causa do meu retiro e não deveria encarar aquela situação normalmente. Reagi com indignação, como seria de se esperar em uma situação como essa, preparando-me para lutar, se preciso fosse:
— Que fazes aqui? Não chamas à porta? — inquiri rispidamente.
Um sorriso que vi muitos anos depois, mas que estava destinado a me entristecer da maneira mais terrível respondeu-me:
— Tu és Jesus, não? Sou Yudah Ishkhariot. Venho buscá-lo para uma audiência com o venerável Matheus, o nosso irmão superior.
A mão fez sinal para que eu o seguisse. Acompanhei-o pelo corredor iluminado pelos archotes, analisando o seu porte e trejeitos. Ali todos tinham trejeitos pouco usuais. "Deve ter a minha idade — pensei — mas a sua aparência sugere ser mais velho. Por que será que José de Arimateia disse-me que eu seria o único rapaz por aqui se existe este, como é mesmo? Ah sim, Judas, Judas Iscariotes".
— Estás aqui há muito tempo, Judas? Pareces mais velho do que o teu tamanho sugere. O sorriso voltou-se, eclipsou-se e levou um dedo aos lábios exigindo silêncio:
— Aqui falamos pouco durante a noite. Nossos irmãos precisam dormir. O dia é de tarefas, e o nosso Deus gosta do nosso trabalho. A propósito, deves saber que aqui não há privacidade; nossas celas não têm portas (como percebestes), e nenhum de nós tem nada de seu...
— Qual é a tua idade? — esperei a resposta, atalhando as suas palavras.
— Silêncio! Não vês que deves guardar silêncio? —
Olhou-me à luz da lâmpada de óleo que iluminava parcialmente o seu rosto e disse:
— Está bem, tenho treze anos. Vem.
Naquele momento, percebi uma diferença marcante entre nós: enquanto eu era dado à verborragia, Judas era incisivo, direto, inexorável. Não preciso dizer que entre ele e mim instaurou-se uma admiração mútua: eu gostava da sua capacidade de se fazer entender com poucas palavras e ele gostava da minha capacidade de dizer as coisas indiretamente, por vezes fazendo com que os outros aceitassem a minha opinião sem se darem conta do ocorrido.
Isso seria suficiente para dar início a uma relação de cumplicidade entre quaisquer outras pessoas, mas não entre nós. Por vezes ele guardava-se distante, por vezes eu; eu sabia que o nosso entendimento não pararia por ali, mas muito me culpei por maltratar um amigo, enquanto estava na realidade marcando uma distância necessária no porvir.
Judas sempre me pareceu resignado simultaneamente à sua revolta contra os romanos e ao seu destino como monge.
Virou-se para mim, dizendo:
— A vida no deserto é dura: envelhece pessoas, destempera caráteres, aguça a maldade, aflora a bondade; neste turbilhão de emoções por vezes antagônicas, o que acontece contigo?
— Talvez todas elas. A profecia cumpriu-se integralmente em mim... Mas espera! Como fizeste para saber o que eu estava pensando? Eu pensei e tu falaste!
— Não sei. — respondeu — Ali estava eu, fazendo um esforço para fugir daquele olhar perscrutador, inquisitivo e inquietante, que me parecia mais receoso do que curioso. Disparou pelo corredor, não sei se fugindo ou ansioso para completar a sua incumbência e se livrar de mim.
Enquanto o seguia, lembrava-me do meu amigo José de Arimateia, um amigo adulto para um menino, coisa quase impossível naquele tempo, mas ainda muito difícil hoje. Ele me apareceu pela primeira vez no primeiro dia da semana. Queria entrevistar-se com o meu pai, e me dirigiu um olhar que sorria. Jamais encontrei alguém que olhasse daquela maneira, e aquilo me impressionou tanto, que passei em vão a tentar imitá-lo, até o dia em que fui batizado pelo meu primo Yohanan, o Batista. Daquele dia em diante, após a descida do Espírito Santo em mim, não só o meu sorriso, diziam, mas todos os meus gestos, as minhas palavras, o toque das minhas mãos e até mesmo o meu andar sorriam.
José era um homem alto, coisa incomum entre nós judeus; seus cabelos e barba negros como a noite, apesar da sua idade não haviam ainda sido tingidos pelo branco dos anos; era tão jovem em aparência como em espírito. Por vezes meu pai reclamava de seu modo de ver a vida, pueril demais para a sua idade. Mas era impossível para qualquer um deixar de gostar dele: simpatizava-se com ele instantaneamente e para sempre.
Minhas lembranças foram interrompidas pela chegada à cela do superior, exatamente igual à minha: nada nas paredes, a pedra aquecida pelo sol inclemente durante todo o dia produzia um mormaço dentro do aposento, um efeito desagradável de sufocamento comum na nossa terra, mas inexplicável (para mim) onde habitava alguém de hierarquia superior. Pelo chão, apenas a terra, piso que conhecemos bem, privilégio que os pobres têm e do qual os ricos e os romanos foram alijados em favor dos dispendiosos mármores que embelezam, mas tiram o contato com o mundo. Talvez seja por isso que as crianças ricas adoecem com tanta facilidade e frequentemente.
— Sei o que pensas, meu filho. Este não é um lugar muito confortável para alguém da minha posição, mas os bons exemplos deveriam vir de cima, e aqui eles realmente vêm. A única razão da minha posição de destaque nesta casa é a minha idade.
Mas vamos falar do motivo de estarmos aqui. Nosso protetor, José de Arimateia, pediu-me que o aceitasse para que estudasse para levar a cabo a tua missão. Neste lugar conhecerá a Doutrina da Verdade, aquela que sobreviveu entre nós, apesar de ter sido desvirtuada pelo nosso povo e pelos gentios. Alguns a esqueceram, outros a mutilaram e emendaram com absurdos, mas aqui, por trás destas paredes sem janelas, ela permanece íntegra como o rio Jordão. Tu serás uma fonte dessa água, a qual verterás com a mesma pureza original. Tu serás a luz do mundo e quem te seguir não morrerá, mas sim ficará vivo pela eternidade ao lado de Deus. Tu, Judas, quando chegar a hora secundará a Jesus para que se cumpram as profecias e ele possa verdadeiramente penetrar no coração dos homens. Jesus, tu serás instruído até que passes dos vinte anos, quando viajarás a um reino distante em direção do nascente, além da Babilônia e da Pérsia, onde os templos de pedra não mais falam e o povo adora o boi. Não te contaminarás com eles, mas sim conhecerás alguém que completará a tua educação. Quando retornares, será outra criatura para a glória do nosso Deus, o único deus verdadeiro, aquele que nos tirou do cativeiro no Egito e nos deu a Terra Prometida. Vá e durmas em paz, que o dia reserva muitas surpresas.
Acostumado a dormir naquelas condições, pobre que eu era não tive dificuldades na primeira noite, embora minha cela fosse especialmente fria; no deserto a noite é normalmente gelada.
No meu primeiro dia, tomei contato com as minhas obrigações da vida ascética: manter o mosteiro livre de animais, ler a Torá (que comecei a ler fluentemente sem nunca haver sido iniciado no hebraico), aprender grego, árabe, egípcio e uma língua estranha, complicadíssima, que aparentemente só eu e o irmão Matheus conhecíamos. Eu deveria aprendê-la para a minha futura vida na terra do deus-boi.
De manhã líamos Platão, a Ilíada e a Odisseia; nenhum dos filósofos gregos me foi estranho, uma vez que se houvesse algo que fosse diferente da Doutrina em suas palavras eu deveria saber para poder refutar. “Conheças as palavras dos outros para não ser combatido através delas.” — dizia o irmão Matheus.
Aquela língua estranha possuía uma palavra curiosa para definir a Doutrina, embora as duas doutrinas não fossem iguais: Dharma.
Meus dias corriam relativamente bem, com poucas interferências maliciosas do irmão Zacarias, enciumado devido ao meu tratamento diferenciado. Várias vezes acusou-me de me alimentar fora dos horários, manter pássaros dentro da minha cela, demorar-me no trabalho... todas as acusações devidamente repelidas porque todos me tratavam com um respeito carinhoso, quase reverente. Eu poderia chamá-los mais de pais do que de irmãos. Assim eu conhecia de perto a minha primeira dificuldade, a primeira perseguição, tendo em vista que até então as outras tinham ficado ou à espreita, ou acontecido quando eu ainda não possuía entendimento suficiente.
Um dia, o irmão Matheus me convocou para conversar em sua cela. Tomamos assento ao chão, sobre a sua cama, eu vexado de estar com os pés sujos, curioso sobre o assunto a ser tratado. As cobertas rescendiam a homem idoso, uma curiosa mistura de suor, terra e mofo.
Quando ele falou, o medo tomou conta de mim: eu havia sido denunciado pelo irmão Zacarias; o Sinédrio somente não me pôde alcançar porque o pergaminho foi parar nas mãos do meu amigo José, que o comprou a peso de ouro.
— É possível que ele faça isso de novo, Jesus. Não sei como resolver essa situação. Não posso expulsar um irmão desta casa sem causar pânico. A tua preparação está apenas começando e não posso arriscar o futuro do nosso povo por causa de um ciumento. Ajuda-me a pensar em algo, por favor.
Aquela solicitação foi estranha, um homem adulto pedindo ajuda a uma criança. Embora eu fosse mais instruído que os garotos da minha idade, ainda carecia de experiência de vida para forjar um plano. Orei em silêncio e pedi ao Pai que me ajudasse a ter uma ideia
que servisse.
As palavras do irmão Matheus me transmitiam uma sensação de dor e decepção. Não sei por quanto tempo ficamos ali sentados, olhando para um lugar que não estava à nossa frente, quando ele me disse:
— Vá dormir Senhor Jesus! É tarde e o sono aclarará as nossas mentes. Amanhã teremos uma resposta.
Assinar:
Postagens (Atom)