Fica-me difícil, às vezes, escrever sobre
algum assunto. Meu lápis ou caneta destampa-se, ameaça escrever, hesita, entrega-se a suas duas dúvidas: se deve escrever ou não, ou se deve fazer greve
e sair dos meus dedos.
Certas vezes tive a vaga impressão desta última dúvida:
em vez de cumprir seu dever, a caneta batia insistentemente contra o papel, como a castigá-lo por estar em branco. Cada vez mais inquieta, ela parecia
estar à beira de um colapso nervoso.
Outras vezes, surge quando menos espero um
romance vulcânico entre a caneta e o papel. Mas em outras oportunidades eles
brigam tão insistentemente e tão furiosamente, que tudo se resume apenas em
fechar o caderno com medo de ser atingido por algum destroço de sua guerra
particular.
Neste momento, eles estão como em
lua-de-mel: cada vez mais unidos. Penso seriamente se conseguirei separá-los
para encerrar o texto, já que tudo está saindo tão fluentemente e eles não
parecem querer separar-se. Sinto-me um criminoso.
Mas aconteceu: ela deixou a minha mão e
foi unir-se ao seu amado sobre a mesa.
Gostaria que ela desse um pouco mais de
atenção a mim, sem deixar seu namorado com ciúmes. Que ela escrevesse para mim sobre um assunto qualquer, para
que eu não passe por omisso. É melhor não forçar. Esperarei ansioso e
pacientemente por uma faísca, um sinal de sua atenção, pelo momento em que ela
voltará aos meus dedos e escreverá duas, três, quatro folhas.
Quem sabe um dia...
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