Um dia eu tive um cavalo. Ele saltou para
cima de mim quando abri um livro. Perguntei-lhe quanto tempo havia passado
escondido ali, adormecido e esquecido: ele simplesmente não respondeu.
Um dia eu tive um cavalo. Ele tentou se
tornar denso para que eu o montasse, mas não pude cavalgá-lo: ele era sutil
demais para isso.
Um dia eu tive um cavalo. Eu me tornei
essência, tão puro quanto os meus sentimentos. Montei nele e cavalgamos por
vales e montanhas, atravessamos riachos e as gotículas de água encharcavam aos
poucos nossas peles.
Um dia eu tive um cavalo. Tornamo-nos tão
intangíveis que as esperanças nos envolveram em seus mantos, o mundo era denso
demais para nós, tanto que nos misturamos à natureza, até que voltamos para o livro.
E então a história passou a ser outra história, com outro nome. E o cavalo
dizia nessa história:
—Um dia eu tive um dono.
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