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domingo, 24 de novembro de 2013

Férias Forçadas

     25/05/2012

   Todas as manhãs ele me acordava. O seu canto me conduzia pela mão desde os meus sonhos mais profundos até a fria realidade. Metade dos meus despertares mais felizes foram ao som das maviosas notas que emitia a sua divina siringe. Em contrapartida, os mais terríveis sempre foram também suavizados por ele. Era meu companheiro durante o tempo em que eu, escritor de parcas ideias e criatividade minguada, tentei em vão sobreviver no mercado editorial.
     Apesar dos meus esforços e da sua inspiração, não consegui continuar e precisei mudar de rumo, tal qual uma nau que se dirigia aos arrecifes durante o sono do capitão e desviou quando ele acordou. Decidido a espairecer, parei por dois meses de trabalhar e decidi fazer coisas que não fazia há muito tempo: assistir televisão, passear pela quinta e admirar a riqueza que eu possuía e de que nem me dava conta. Árvores centenárias, algumas em extinção, pássaros multicoloridos e de belos cantos que faziam seus ninhos na minha pequena ilha de paz em meio à confusão de cidade grande.
     Pude pela primeira vez admirar o andar de uma lagarta, o eclodir de uma linda borboleta de uma feia e envernizada crisálida... coisas que eu tinha em meu quintal, tesouros inimagináveis para um ex-piloto de máquina de escrever e atual comandante de uma dupla computador-impressora.
     Sob o pretexto de tornar a minha vida mais fácil, estes dois últimos aceleraram a minha desventura. Sim, agora não havia desculpa de defeitos na máquina, falta de fita... o meu editor se encarregou de me prover de uma dupla reserva que não me permitia argumentar. E agora em vez de interno na masmorra os últimos três anos da minha vida, havia apenas o subir e descer das costas de uma lagarta.
     Um dia, sem perceber o perigo, adotei um gatinho que encontrara na rua. Com todo o carinho cuidei dele na esperança de contar com a sua companhia; ele cresceu e me dedicou a sua típica frieza de gato: jamais vinha quando eu chamava, apenas quando queria, ou seja, quando precisava de algo, carinho, comida ou água.
     Meu amigo pássaro continuava os seus concertos matinais, com a sua melodia triste de costume, uma sinfonia que os grandes compositores clássicos não se atreveriam a tentar fazer igual. Seus trinados e gorjeios faziam parte de uma categoria especial de música: aquela que uma partitura não comportaria, ou pelo menos que a mão que a escreveu era transcendente, imaterial, divina.
     Meu amigo (que o era sem jamais imaginar) continuava a me enlevar todas as manhãs e me fazer esquecer os problemas com a sua trilha sonora de retiro espiritual.
   Mas um dia tudo acaba, e despertei em completo silêncio: meu amigo cantor havia desaparecido sem deixar traços. Em vão procurei por ele, mas era como se jamais houvesse existido. Coincidentemente, o gato em quem não havia sequer posto um nome, tornou-se mais chegado a mim, mudando de comportamento, tornando-se quase um cachorro. Talvez fosse ele o culpado daquele assassínio hediondo, talvez não. Fosse qual fosse o resultado da investigação que eu jamais empreenderia, havia perdido a minha ligação com o divino, a minha última razão para manter a sanidade.
     Mas alguns dias depois comecei a escrever este relato assim, à mão mesmo, quando percebi que mesmo com a motivação triste de um poeta trágico grego, eu havia recomeçado a escrever, e que estas páginas de uma reportagem triste sobre a morte de um artista nato, um cantor como eu jamais havia encontrado entre os humanos era melhor do que tudo que eu escrevera até então.

     Mas nada me afastava a suspeita daquele gato. Se ele pelo menos aprendesse a cantar....

O Terminal

31/01/2013

     A mala assentou-se na esteira rolante como um elefante à beira de um rio. Sua cor reforçava essa impressão, pois o revestimento era de padrão couro, e a cor era cinza. Aquela imagem típica da África sempre ocorria a John quando via as pesadas malas cedendo ao próprio peso.
Como uma bala de goma pela boca de uma criança, a mala foi engolida pela entrada do setor de bagagem.
Olhou em volta, procurando o balcão da imigração e foi se aproximando lentamente da fila, longa demais para o horário. Uma loura de porte grande e ombros largos e uma expressão grave no rosto estava atrás do balcão.
A funcionária pegou o passaporte, abriu e procurou a primeira folha para ler o nome escrito em voz alta:
— John Brandt, não?
— Sim.
Ela olhou novamente para a foto, olhou para ele e devolveu o documento.
“Voo 531 para Nova York, embarque pelo portão 12; segunda chamada.” — disse o alto-falante.
— Liberado. Seu avião o espera. — disse a funcionária, sorrindo mecanicamente.
John dirigiu-se ao portão 12 e no caminho emparelhou com um homem de terno cinza e barba por fazer. Seu cabelo era ruivo e encaracolado, trazia as roupas perfeitamente limpas, embora um pouco antigas. O corte do paletó era antigo, mas parecia ter acabado de ser comprado, na cor marrom. A calça era também marrom e os sapatos pretos. Olhava a todo momento para o relógio, parecendo esperar alguém.
E eles foram assim, emparelhados, até o interior do avião. Vez por outra, o seu vizinho lhe dirigia uns olhares perscrutadores que só não o incomodavam porque os outros passageiros também foram analisados. “Muito suspeito esse sujeito.” — pensou John. Qual não foi a sua surpresa quando viu que o homem sentou-se ao seu lado na poltrona, o mesmo olhar em cada detalhe, a mesma expressão curiosa...
John se ajeitou, deu um suspiro olhando para o teto afivelando o cinto de segurança e, devido ao cansaço, logo cerrou os olhos para um sono profundo. Quando o cansaço é muito, é difícil sonhar, e mais uma vez aconteceu: um sono em branco. Acordou novamente e desta vez sonhou, vendo o seu vizinho tentando furtar-lhe a carteira durante o sono. A preocupação o despertou e pôde encarar aquele par de olhos que estava novamente sobre ele.
— Há alguma coisa que deseja dizer-me ou perguntar? — perguntou John, incomodado.
— Não, não se aborreça, senhor. Eu sempre faço isso quando embarco. Admiro os passageiros, me comovo com as crianças e aviso a todos que posso.
— Avisa do quê? — perguntou John, convencido de que se tratava de um lunático.
— Você não deveria ter pego este voo, senhor...?
— Brandt, John Carpenter Brandt, mas...
— Curioso, também sou John. John Moss, economista. Viajo neste voo há onze anos, e já houve vários casos de quedas de aviões nele.
— Bem John Moss, o que quer que você deseje me vender me mostre logo ou se quer me dar o cartão de alguma vidente, faça-o agora, porque vou me virar para o outro lado e dormir.
— Veja! Veja! Esta é minha esposa, Edna, e estes são meus filhos, Brittany, Josh e Brian, — estendeu a foto com tanta veemência que John sentiu-se quase na obrigação de vê-la.
Havia na foto uma bela mulher loira usando um vestido azul com grandes flores estampadas e dois rapazes gêmeos ruivos e sardentos, três grandes sorrisos iluminados para o fotógrafo. Sem dúvida havia sido uma ocasião muito especial.
— Esta foto foi tirada antes da nossa última viagem. Estávamos todos felizes pois eu havia recebido um convite para trabalhar em Nova York e poderíamos passar mais tempo juntos nos fins de semana.
— Senhor ,estou cansado. É uma viagem longa até Nova York e preciso dormir um pouco! O senhor me compreende?
— Você não deveria ter pego este voo! Pode não conseguir chegar em casa! — tornou a dizer.
— Escute aqui! O único perigo que vejo por aqui é a sua ideia fixa de que eu não deveria ter entrado neste voo! Que paranoia!
— Se digo isso é porque sei do que estou falando. — disse o homem, contrafeito — Mas se acha que o incomodo, vou mudar de lugar. O avião está quase vazio, ninguém vai perceber. Mas não diga que não avisei.
A viagem correu sem mais incidentes, e quando pousaram John sentiu remorsos por ter tratado tão mal aquele homem. Parou no portão de desembarque e aguardou a saída de todos os passageiros. Pôde ver o padre, a senhora idosa que comia biscoitos e a mulher obesa com o garotinho hiperativo, todos olhando para ele da mesma maneira que o homem inconveniente, mas o próprio não. Dirigiu-se ao padre e perguntou:
— Padre, o senhor viu aquele senhor que estava sentado ao meu lado? Eu o tratei tão mal que quero me desculpar.
O padre arregalou os olhos e disse:
— O senhor faz algum tratamento psiquiátrico? Não tomou os seus remédios?
— Só porque quero me desculpar com alguém? Qual o crime nisso?
— Senhor, ninguém sentou-se ao seu lado durante toda a viagem. Nós o olhávamos espantados porque em determinado momento o senhor começou a falar sozinho, e de repente virou-se para o lado e dormiu.
— O que é isso? Um complô para me enlouquecer? Primeiro um inconveniente atrapalha o meu descanso dizendo que eu não deveria ter entrado neste avião; depois o senhor vem me dizer que ele não existe. Ora, bolas!
— Perdão, senhor, mas o grupo onde eu estava foi o último a sair do avião, que foi logo para o hangar, e não havia mais ninguém a bordo. O senhor deve ter tido alguma alucinação.
John ficou atordoado e resolveu ir para casa. Atravessou o saguão do aeroporto em minutos e pegou a longa escada-rolante para a saída. Havia pessoas de todas as nacionalidades espalhadas por todos os cantos: indianos no guichê de compra de passagens, alguns árabes passavam pelo check-in enquanto alguns africanos lutavam para reaver a sua bagagem extraviada. Nada ali lhe parecia estranho, tudo estava como em qualquer aeroporto internacional do mundo. Apenas um homem inexistente que lhe havia incomodado durante toda a viagem insistia em não lhe sair da cabeça, como um malho batendo numa bigorna invisível cujo som eram as palavras de John Moss, o inconveniente: “Você não deveria ter pego este voo!”.
 Enquanto se despia para tomar um banho, pensava no que diabos queria dizer aquele homem e aquela frase.
Entrou embaixo do chuveiro saboreando o toque da água como se fossem centenas de minúsculos massagistas, cada um encarregado de um quinhão da sua pele. Estava frio naquele dia, e a água morna lhe dava um prazer todo especial.
Finalmente deitou-se, animado com a possibilidade de ter um sono normal em muitos dias. Não demorou e estava dormindo um sono profundo, onde se desenrolava um drama de cinema onde o rosto de John Moss repetia ad infinitum a mortificante frase.




A luz do dia entrando pela janela o despertou. Levantou-se e foi até a cozinha fazer o seu café da manhã. No caminho parou, lembrando-se de procurar o nome de John Moss na internet. Passou pelo computador, apertou o botão de iniciar e dirigiu-se à cozinha. Há muito tempo, a morte da esposa e do filho, esmagados por uma carreta de água carbonatada que tombou sobre o carro, fizeram-no perder o gosto por alimentos saudáveis. Comia quantidades assombrosas de junk-food enquanto esperava o dia em que teria um enfarto.
Retornando da cozinha com um prato de bacon com ovos e uma lata de cerveja, bebericava alegremente enquanto olhava para a tela.
Decidiu então digitar o nome do homem misterioso, e a palavra avião: o buscador mostrou apenas um resultado: “Voo 531 da Ludger Airlines cai nas proximidades de Nova York, matando onze pessoas.” “A companhia estuda acabar com esse número de voo, pois os passageiros passaram a evitá-lo por superstição, após o quarto acidente em vinte anos.”.
Desceu então a imagem até a lista de passageiros e viu, inacreditavelmente, o nome de John Moss, economista.
— “John Moss, economista, casado, cinquenta anos, três filhos”. — Mas isso é impossível!
Não conseguia acreditar no que via: passou a página até as fotos dos mortos. Lá estava o mesmo homem, com a mesma roupa.
Aquela descoberta o deixou abalado. Descobrir que estivera conversando com um fantasma abalaria qualquer um, mas aquilo teve um efeito devastador sobre ele.
Acabou de fazer o seu café e o engoliu com dificuldade, resolvendo que procuraria a família do infeliz. Pegou novamente as roupas e as vestiu, envolvendo-se no sobretudo pesado.
Fez sinal para um táxi e foi ao Sindicato dos Economistas de Nova York para tentar descobrir o endereço do homem. John Moss era um nome comum naquela cidade, e tentar achá-lo através da lista telefônica demandaria muito tempo.
O táxi parou, com um pequeno tranco. John saltou e pagou, ignorando o troco estendido pelo motorista de longos bigodes e barba, enquanto corria em direção à entrada do prédio. Poucos passos foram necessários para alcançar o elevador, enquanto passava entre várias pessoas que por lá transitavam, e um dedo nervoso apertou o botão do 12º andar. Segundos depois a porta pantográfica se abria e John entrava na sala repleta de mesas encimadas por computadores que era o sindicato. Avistou logo alguém desocupado, que lhe fez sinal para que se aproximasse. O homem com um bigode improvável que se espremia entre uma impressora quase maior que ele e um arquivo meio enferrujado falou:
— Em que posso ajudá-lo?
John ainda percorreu a figura atarracada, metida em um terno azul fora de moda antes de dizer:
— Procuro o endereço atual da família de um amigo meu, John Moss, pois soube que faleceu e gostaria de dar-lhes as minhas condolências.
— Desculpe, senhor, mas não podemos dar informações sobre os nossos associados.
— Tenho certeza de que este papel pode ajudar nisso. — disse, estendendo uma nota de cem dólares.
O homem deu um sorriso quase imperceptível sob o bigode farto, pegou e embolsou a nota e pôs-se a procurar o número do arquivo morto que continha a ficha do procurado.
Descobriu que era o arquivo 13-C e dirigiu-se para o labirinto de metal na sala ao lado; logo retornou com uma ficha amarelada e sentou-se novamente.
— Há quanto tempo não via o seu amigo? — perguntou desconfiado.
— Há muito tempo. Fizemos a high school juntos e não nos víamos desde então.
— Bem, a informação do falecimento é correta, mas aconteceu há exatamente onze anos. Como recebeu a notícia?
Subitamente, John se deu conta de que não tinha um motivo plausível para procurar um homem morto há tanto tempo, e não podendo explicar o que perguntava o seu interlocutor, disparou:
— Na verdade foi uma informação um pouco truncada que recebi de um amigo em comum, e como não nos víamos desde a formatura, não pude ter maiores esclarecimentos.
O homem pegou um pedaço de papel e rabiscou o endereço.
— Não podemos garantir a precisão do endereço, afinal são onze anos. Boa sorte. — disse, estendendo-lhe o papel.
— Adeus, obrigado.



A casa branca de dois andares, quase um padrão naquele bairro, estendia-se pelo final de um terreno separado dos outros pelas cercas-vivas que um rapaz ruivo de uns dezessete anos meticulosamente cortava com uma tesoura de grama. 
— Bom dia! Aqui é a residência dos Moss? — disse com efusividade.
Brian voltou-se para ele:
— Sim. Quem quer saber? — perguntou secamente.
— Meu nome é Carpenter. John Carpenter. Conheci o seu pai, suponho que seja o Josh.
— Não, sou Brian. Josh está lá dentro jogando videogame. Onde conheceu o meu pai?
— Num avião a caminho daqui.
— E era amigo dele?
— Não exatamente. É uma longa história.
Desconfiado, Brian disse:
— Tenho tempo. Conte-me.
— Na realidade o conheci ontem,  quando me mostrou uma foto de vocês  crianças  com a sua mãe de vestido estampado.
Os olhos de Brian foram se arregalando, até parecer que não parariam mais.
— Senhor, o meu pai está morto há onze anos, respeite a memória dele. Se o senhor é algum tipo de vidente profissional querendo me aplicar um golpe, digo-lhe que já tentaram fazer isso antes, na época da morte dele. Por favor, vá embora.
John sentiu que aquela conversa não passaria daquele ponto e resolveu que faria uma retirada estratégica. Estendeu-lhe o seu cartão e despediu-se:
— Se resolver conversar comigo, procure-me neste endereço. Estarei na cidade até terça-feira.
Brian pegou o cartão e virou-o, lendo:
— John Carpenter Brandt, engenheiro químico.
— Pelo menos pegou o cartão. — falou baixo consigo mesmo, afastando-se.



— Bom dia Heather. Bom dia Sean. Bom dia Lucy.... — desfiou o rosário de cumprimentos matinais de costume, a caminho da sua sala.
— Bom dia Sr. Brandt. — a resposta deles era padrão.
A porta pesada de madeira era sempre uma atração para os olhos de John. Herança do antigo prédio que foi demolido para a construção do atual, chamou a atenção do engenheiro, que a poupou. Por uma questão de afinidade foi colocada na sala de John, o que lhe deu muito prazer.
Entrou e sentou-se à mesa, correndo os dedos pela tampa do notebook. Olhou em torno, sorrindo quase imperceptivelmente ao ver o sofá de couro que tantas vezes lhe servira de cama quando se separou de Ann. Até que encontrasse um apartamento serviu-se uns três meses do sofá, assumindo em troca os custos da hidratação. Aqueles tempos eram engraçados quando se lembrava de que a demora em procurar fora devido ao fato de ter sido devido ao desânimo. Casar-se de novo seria um erro que não pretendia cometer. Joan não saía da sua cabeça, e qualquer outra seria repelida por seu inconsciente.
— Senhor Brandt, há alguém aqui que deseja vê-lo. — disse Heather no interfone.
— Quem é? — perguntou, enfadado.
— Um rapaz chamado Brian Moss. Diz que é urgente.
— Mande-o entrar agora. — disse, procurando conter a excitação. Parecer muito ansioso agora poderia acabar com as chances do rapaz confiar nele.
Os poucos momentos que se passaram foram de intensa expectativa,
— Bom dia, Senhor Carpenter. Decidi vir vê-lo. Peço perdão pelas minhas palavras mais cedo. — disse Brian, humilde.
— Sente-se, disse John —Fique à vontade.
Apertou o botão do interfone:
— Heather, traga-nos... — olhou para Brian, inquiridor.
— Café, por favor. — respondeu o rapaz, envergonhado.
Brian ficou ainda uns dois minutos olhando em torno antes de falar.
— Sabe, custo a acreditar que o senhor tenha visto realmente o meu pai, ou até que realmente o tenha conhecido.
— Entendo; no seu lugar eu também não acreditaria. Posso quase dizer que me é também difícil acreditar. Entendo que tenha passado maus bocados com os charlatães, eu mesmo passei por isso quando a minha mulher faleceu, mas posso lhe garantir que a minha experiência com o seu pai foi legítima. Ainda não consigo entender-lhe a natureza, mas foi real.
Contou-lhe então o que aconteceu, e a cada gesto, a cada palavra, Brian reconhecia o pai que tanto lhe fazia falta.
Ao fim da exposição, disse entre lágrimas:
— Sem dúvida era o meu pai. A menos que o senhor tenha sido um amigo muito íntimo que desconhecíamos, o que é impossível em se tratando do meu pai, posso dizer que o senhor realmente o conheceu naquela noite. A foto que lhe mostrou foi tirada na Flórida, quando fomos à Disney. Estava no bolso do paletó dele quando morreu. Acharam quando o corpo foi resgatado. O que ele lhe disse mesmo?
— Que eu não deveria ter entrado naquele avião.
— Estranho. Será que era um aviso?
— Não. Estou aqui, não estou?
— Talvez se referisse ao número do voo, e não ao aparelho.
— Pode ser. De qualquer jeito, vou fugir do voo 531.
 Vou passar a informação para os outros.
— Ah, sim, você tem irmãos. 
— Sim senhor, na foto estávamos todos. Eu adquiri o hábito de cuidar do jardim após a morte do meu pai, que foi uma verdadeira terapia também após a morte da minha mãe, ocorrida após meses de uma depressão profunda se apossar dela, levando-a ao suicídio. Brittany está casada há muito tempo e morando em Nova Jérsei. Josh ficou na casa da família e cuida de tudo que lembra papai. Estamos vivendo quase em função da memória dele.
— Bem, preciso ir. — disse Brian, enxugando as lágrimas. — Se o senhor ví-lo novamente, sabe onde nos encontrar. Brittany gostaria muito de vê-lo novamente.
 Certamente, mas não creio que apareça em outros voos. Com o cancelamento do número, pode ser que nunca mais se manifeste.
— Então adeus, John Carpenter.
—  Adeus, Brian Moss.
O rapaz ruivo retirou-se e John ainda pensou a respeito cerca de meia hora antes de mergulhar novamente no trabalho.



No dia seguinte, precisou voltar a Los Angeles; foi pessoalmente ao aeroporto e ao guichê comprar a passagem.
— Por favor, uma passagem de ida e volta para Los Angeles. Deixe a volta em aberto.
— Primeira classe, senhor? — perguntou a balconista atraente.
— Sim, por favor. Veja que não seja no voo 531, por favor.
Embarcou após o check-in entediante e a passagem pelo raio-X. Mal havia tomado assento e fechado o cinto de segurança quando ouviu a voz da aeromoça:
— “Senhores passageiros: há um problema eletrônico com este avião e faremos o translado para outro. Por favor, agradeceremos se passarem ao ônibus em frente à escada”. — disse a voz no alto-falante.
Os passageiros foram descendo um a um e embarcando no ônibus. A viagem foi curta e chegando ao outro avião foram subindo ordeiramente.
John foi caminhando lentamente até a sua poltrona, que era próxima ao meio da aeronave. Ao seu lado, um lugar vazio. O cansaço aliado às preocupações o fizeram pegar no sono; em sensações bem diferentes, sentia-se flutuar como se estivesse no mar ao sabor das ondas.
Quando acordou a sensação perdurava; abrindo os olhos viu um olhar preocupado que reconheceu como sendo de John Moss.
— Você não deveria ter pego este voo.
Assustado, Brandt deu um pulo na cadeira e perguntou:
— O que houve?
Silêncio. Somente um olhar de piedade era sua resposta. Recuperando-se do susto, disse ao outro:
— Estive com o seu filho Brian. Agora acredito que posso ver pessoas mortas. Disse que sua esposa morreu de depressão depois que o senhor se foi. Seus filhos Brian e Josh ainda vivem na casa da família. Sua filha está casada, morando em Nova Jérsei.
— Eu sei. Minha mulher está logo ali, veja!
Apontou um indicador grosso e enrugado em direção a uma mulher de seus quarenta anos. Era Edna, a esposa.
— Por que estamos parados? Já chegamos a Los Angeles?
— John, nós não chegamos. Eu disse que não deveria entrar neste voo. Era o voo 531.
— Mas não era o voo 531! Eu tive esse cuidado!
— O avião que você entrou primeiro não era, mas este era. Quando os trocaram de aparelho vieram justo para este.



— Brittany, veja isso! É o mesmo voo em que papai morreu. Outro acidente!
— “Voo 531 mata novamente”
— É mesmo! Cento e quarenta e dois passageiros.
— E tem mais. Veja a lista de mortos.
— O que tem de mais? Não conheço ninguém daqui.
— Vê este aqui? John Carpenter Brandt. É o homem que conheceu papai num voo há três dias! Então era isso que ele queria dizer com “Você não deveria ter entrado neste voo”. — disse Brian com pesar.
— Nem tive a chance de conhecê-lo. Pelo que você disse, parecia ser um bom homem. Se interessou por nossa história...

— E por pouco não se salvou por causa dela.... — encerrou Josh, deitado no sofá.

sábado, 8 de junho de 2013

USS TRITON

17/09/78

O navio atracou, e a visão da multidão no cais baixíssimo parecia a de um formigueiro. Reuni minhas poucas coisas, desci e fui em busca da confirmação da minha informação.
O cais estava tumultuado, pessoas resvalavam umas nas outras e as cargas que levavam caíam ao chão.
Enveredei por uma viela malcheirosa, e aqui e ali era abordado por prostitutas seminuas e mascates oferecendo bugigangas.
Mais à frente, percebi que a fumaça reinante não era apenas neblina. Vapores de ópio penetraram pelas minhas narinas, tirando-me da realidade. Tonto, nem percebi a chuva torrencial que se abatia sobre toda a cidade.
As gotas de chuva só serviram para turvar ainda mais a minha visão. Senti que havia tropeçado e caído. Logo senti meus olhos amornarem-se, banhados em meu próprio sangue. Vi então a alguns metros de onde estava, uma pessoa enrolada em alguns sacos de aniagem. Estranhamente, estava sentada como um mexicano, com a cabeça coberta por um chapéu de palha de arroz.
Sua voz me causou tanto espanto quanto a sua aparência:
— Machucou-se, amigo?
— Se meu sangue responde à sua pergunta... — respondi.
— Procura por algo?
— Sim. Recebi informações de que meu irmão havia se estabelecido por aqui, após desertar da marinha mercante de Sua Majestade.
— Sei. — exclamou ele, mostrando interesse.
De repente, senti algo familiar naquela voz embargada, algo que sentia nos meus tempos de criança. Levantei-me surpreendentemente rápido para quem estava dopado pelos vapores e andei em sua direção. Ele silenciou, mas não se moveu. Cheguei a suspeitar de que fosse um boneco e alguém estivesse brincando de ventríloquo comigo. Puxei o seu chapéu e descobri que o meu interlocutor não passava de um saco de batatas vestido como um ser humano.
Levantei a cabeça e olhei em torno quando vi, escondido atrás do armazém, próximo ao anúncio de uma casa de gueixas, aqueles mesmos olhos brilhantes, vivos, embora não estivessem encravados no mesmo rosto juvenil de outrora.
A expressão selvagem havia desaparecido, substituída pelas rugas que denunciavam o passar dos anos.

Se seus olhos são jovens, seu espírito ainda tem a mesma alegria de viver. — pensei — Então, ele ainda está vivo. Seu rosto estava marcado por várias cicatrizes e seu corpo em decrepitude mas, sem dúvida, eu reencontrei meu irmão.

Pesquisa

13/04/2012

— Dois, três, um! Iniciar observação de hoje. Os espécimes acabaram de acordar e começaram a se alimentar. Consomem frutas, cereais, legumes e verduras crus ou cozidos. Bebem água. — virou-se Fem para Nod, com expressão de nojo.
—  Consegue imaginar porque fazem isso? — perguntou Nod, curioso.
— Esses organismos primitivos são assim mesmo. Precisam comer e beber para manterem-se vivos. Dizia o meu mestre que nós também já fomos assim.
— E depois, o que acontece com essas coisas que eles ingerem?
— Transformam-se em uma massa e em um líquido malcheirosos.
— Que nojo! Você tem muito sangue frio! Onde está o nosso ideal de asseio e pureza?
— É a Ciência, meu amigo! Veja isso: eles estão usando as patas dianteiras para comer.
— É nojento. Veja: enfiam nas aberturas no rosto e trituram antes de ingerir. Nojento. Descobriu mais alguma coisa?
— Consegui descobrir como se reproduzem. Precisam sempre de dois indivíduos: um produz o filhote enquanto o outro se encarrega de alimentar e proteger a todos.
— Curioso, não? Quanto tempo demora em produzir um filhote?
— Bem, para fazer é pouquíssimo tempo. Eu diria que no máximo um karad1; o filhote fica dentro do ventre de um indivíduo por uns dez cromer2. Mas o pior é que ele não nasce independente; se não for alimentado, aquecido e defendido, invariavelmente morre.
— Será que poderíamos chama-los de raça civilizada?
— Longe disso, Nod! — disse ele, rindo-se da ignorância do outro. —Eles são brutais às vezes até mesmo com os próprios membros do seu grupo, só pensam em si mesmos, são exatamente o oposto de nós. É de se admirar que tenham sobrevivido tanto tempo. O seu planeta os produziu há alguns far3 e eles se mostraram muito ingratos com ele. Destroem tudo, sujam, corrompem e quando não podem destruir algo, voltam-se uns contra os outros para matá-los ou em último caso até a si mesmos. Matam-se rapidamente ou ingerindo substâncias que o farão lentamente.
Quando parecem imbuídos de altruísmo, o fazem em busca de prazer ou de recompensas.
Eles acreditam que um ser superior que os criou vai recompensá-los após a morte se eles se mostrarem bondosos com os outros; por isso, mesmo que sem sinceridade, promovem o bem-estar momentâneo dos semelhantes e bajulam de todas as maneiras possíveis o ser superior. Dedicam-lhe músicas, ficam sem se alimentar, dormir, fazer filhotes, tudo no intuito de fazê-lo acreditar que são merecedores das suas benesses. E o que é pior: eles realmente acreditam que são bons. Patético. Que ser superior premiaria o orgulho, a falsidade e a bajulação?
— Como chegaram a eles?
— Nós os monitoramos à distância desde que surgiram, tentamos injetar-lhes cultura, saber e moral, mas eles insistem em não absorver. O saber somente lhes interessa um pouco se lhes permitir criar meios de se destruírem ou dominarem outrem. Só interferimos porque quase se extinguiram.
— Doenças?
— Guerra. Após uma delas, a mais catastrófica de todas; os recolhemos quando de uma visita ao seu planeta, e esses foram os únicos sobreviventes. Quase todos morreram devido aos efeitos da radioatividade. Mesmo estes estão contaminados.
— É mesmo. Não vale a pena perder tempo estudando-os. São animais nocivos. As criaturas mais simples do nosso planeta são mais úteis, inclusive a si mesmos.
— A propósito, por que veio me visitar? Está sempre tão atarefado...
— Ert pediu que o convidasse para dormir lá em casa hoje. Além disso, o comandante do projeto mandou uma ordem para que você descarte os espécimes desta leva para abrir espaço para uma nova. Deve chegar hoje mesmo.
— Mas pensando bem são os últimos da espécie! Não podemos fazer isso!
— Diante do que descobriu sobre eles, não é bom para o Universo que esta espécie sobreviva.
— Mas...
— Fem, foi uma ordem superior. Você precisa descartar esses animais, esses... Como se chamam?
— Homens. São homens. Está bem; acho que o Universo não sentirá falta deles. Ordens são ordens.
A sua mão pairou sobre uma coluna de luz que saía de um painel à sua esquerda; lentamente, um gás violeta foi preenchendo a redoma, sufocando cerca de cem espécimes.
Fem e Nod retiraram-se abraçados e foram embora para uma noite de diversão.


NOTAS:
1 karad: equivalente a nove meses.
2 cromer: meses.
3 far: milhões de anos.


C1

     
20/ 03 2013
     
     — Quanto tempo falta? — perguntou Annon, preocupado.
     — Perdão, senhor, não se trata de um ser humano prestes a falecer, é apenas um robô.
     — Para você que cuida deles como profissão pode ser, mas para mim é o melhor amigo que tive na vida. — disse, com lágrimas nos olhos.
   O técnico calou-se, virando o rosto para o robô, imaginando que espécie de homem viveria... “Quanto tempo mesmo?” Olhou para a data de fabricação da máquina: “Vinte e dois anos! Que robô dura vinte e dois anos?” Esse cliente era uma pessoa difícil, sempre procurando regatear no preço da visita e do serviço. Entretanto a acolhida era agradável, pois ele servia lanches a toda hora, despedindo-se como um oriental, com muitas reverências.
     Os circuitos daquele robô estavam obsoletos há quase o mesmo tempo que ele foi fabricado, pois saíra no último ano de produção daquele modelo.
     Mas isso Annon não entendia: o robô era um amigo querido. Fora ele que o consolara quando a sua família pereceu durante uma epidemia de Nepar no planeta Gupr: Dareer carregou sozinho a caixa com as urnas das cinzas até o cemitério. Se não fosse praxe cremar os corpos de vítimas de Nepar, certamente ele carregaria os caixões devido à sua consideração por Annon.
     O velho C1 tinha até um nome, Dareer, coisa incomum para um robô, mas do que Annon havia feito questão. Na época do acontecido, Annon fazia parte de uma religião que pregava que tudo deveria ter um nome; se todos os objetos inanimados eram nomeados, por que algo que tinha um comportamento melhor do que todos os humanos que Annon já vira não deveria ter?
     Annon acariciava a cabeça do androide como se fosse a do seu próprio filho, lamentando que ele não tivesse tato para sentir o seu carinho e calor humano.
     Comparado aos modelos modernos, Dareer era obsoleto, mas talvez se fosse um deles não tivesse sido capaz de perceber o momento que o seu amigo estava passando; os mais modernos, parecendo um pleonasmo, eram “máquinas” demais.
     Mas ali estava o seu amigo, agonizante, com uma bateria viciada, tendo poucos minutos de vida a cada ocasião em que era ligado.
     — Não há nada que você possa fazer?
   — Senhor, veja isso. — disse o técnico, já demonstrando irritação. — Esta é uma bateria moderna de íons de lítio controlados por Campo de Faer cíclico. — levantou uma pequena caixa que cabia na palma da mão. — Ela fornece energia para trinta dias de funcionamento sem recarga. Agora veja a do seu robô: ela ocupa um terço do seu volume corporal. Como todas as peças dele, ela não é mais fabricada, portanto, inteiramente obsoleta.
    — E não é possível fazer uma adaptação? — a voz de Annon estava começando a ficar embargada.
    — Não senhor. O peso da bateria responde pelo equilíbrio da unidade, além dos seus circuitos não terem sido projetados para funcionar com outro tipo. Eu precisaria refazer os seus circuitos para tanto. Aconselho mais uma vez que o senhor troque o seu robô por um mais moderno. O governo tem um excelente programa de reciclagem de lixo eletrônico.
     — Posso lhe fazer outra pergunta?
     — Se o seu filho estivesse muito doente, à morte mesmo, você se livraria dele e arranjaria outro?
     — Claro que não, senhor. Mas estamos falando de uma máquina e não do seu filho.
    — Mas é como se fosse. Perdi a minha família toda em uma tarde, e ele tem sido a minha família por todos esses anos. Portanto, se você não consegue entender isso, já é hora de trocar de técnico. Deixe tudo como está, recolha as suas ferramentas e aqui está o seu pagamento da visita. — estendeu-lhe o cartão.
    — Eu não quis ofendê-lo, senhor. Só acredito que não valha a pena sofrer por uma máquina antiga.
     — Maldita sociedade tecnológica! — explodiu Annon. — Vocês desconhecem um conceito básico que faz parte de ser humano, o valor sentimental! Tudo para vocês pode ser substituído por outro mais novo, inclusive as pessoas! Não preciso de um robô moderno, preciso do meu Dareer! Passar bem!
   Revoltado, o técnico juntou as suas ferramentas e guardou-as na valise. Retirou-se praguejando contra aqueles “sentimentais idiotas” que tanto dificultavam o seu trabalho.
Annon ficou ali por horas, abraçado a Dareer, talvez esperando por um milagre.
     — Sucha, desejo ver o canal de anúncios.
     — Sim senhor. — uma voz feminina encheu a sala.
O computador de habitabilidade ligou a televisão e ele pôs-se a tentar encontrar um novo técnico. Repetia incansavelmente uma frase, como um mantra:
     — Novo técnico, novo técnico, novo técnico...
     Uma imagem do seu robô, ou melhor, do mesmo modelo apareceu.
    — Venha ao “Hospital dos Robôs”. Consertamos máquinas antigas e somos especializados em C1 da Devonstar. Temos peças originais usadas e recondicionadas. Atendemos em domicílio. Sucha, ponha-me em contato com eles.
     Uma esperança surgira. Essa empresa seria a salvação? Só restava aguardar.
     — Amigo, tenho fé que o seu sofrimento vai acabar. Eles vão consertá-lo.
     Vinte minutos mais tarde, o técnico atravessou a entrada e foi diretamente de encontro ao robô: Annon, que ficara de mão estendida, entendeu a reação do técnico. Este tentou ligá-lo:
     — Bateria viciada, não é, garoto? — falou com Dareer.
     — S-Sim. Pode consertá-lo?
     — Não. Está perdido.
     — Está brincando. Eu é que estou perdido. — levou as mãos à cabeça, desesperado.
    — Calma, senhor. Eu disse que não posso consertá-lo, mas o dono da empresa pode. Pela sua reação este robô é muito importante para o senhor. Vou contatar o senhor Borer.
Chegando ao apartamento, Borer entrou e repetiu o gesto do técnico anterior. Olhou os circuitos, mediu a bateria, coçou a barba, a cabeça e deu o veredito:
     — Temos um amigo agonizante aqui.
     — Pressionou o botão de ligar. Dareer ligou-se e pediu mais uma vez:
     — Annon desfaça-se de mim. Estou velho e cansado, não sou mais útil.
     — Não amigo. — disse, controlando a emoção. — Você é precioso demais para mim, o filho que não tenho mais.
     Borer observou aquela cena atentamente e decidiu-se a ajudar.
     — Senhor...
     — Annon.
     — Senhor Annon, o seu amigo tem um problema grave de bateria, além de alguns circuitos avariados que não existem mais à venda.
     — Vou perdê-lo?
    — Estive observando o seu carinho com ele. Lembrei-me da minha própria experiência com o meu C1 para o qual aguardo peças há mais de dez anos.
     — Então você também sofre com isso?
     — É claro! Sabe, os C1 são robôs de trabalho, mas por alguma razão não explicada, talvez um defeito nos processadores que tenha se tornado crônico na fabricação, desenvolviam uma personalidade e um apego aos donos que quase os tornava humanos. O meu ocupou o lugar do filho que não tive. Vi que o seu caso é pior do que o meu, pois o senhor substituiu o filho que perdeu por ele.
     — Como descobriu?
     — Aquele ali é o seu filho, não é? A quantidade de porta-retratos dele pela sala é maior do que a da família inteira.
     — Então você me entende?
   — Mas é claro, por isso resolvi lhe ajudar. Tenho a solução para o senhor. Vou trocar a bateria do meu C1 pela do seu. O senhor precisa mais de um C1 agora do que eu.
     — Mas e o seu? E se aparecerem os circuitos de que precisa?
    — Há muitos C1 por aí, resistindo bravamente e trabalhando. Uma hora dessas aparece um do qual eu possa tirar as peças de que preciso. Vou ceder os circuitos que estão danificados no seu e a bateria. Seu amigo vai voltar a funcionar.
     — Não sei como lhe agradecer pela ajuda.
   — Deixe estar, senhor. Só quem teve ou tem um C1 entende o meu gesto. Ele é tão maravilhoso que pessoas vigiam os centros de descarte de lixo eletrônico em busca de peças ou máquinas para remontagem ou canibalização. Ele é tão valorizado que há clubes pelo mundo todo. Sabemos os mínimos detalhes da sua construção e o meu clube já comprou as matrizes da carcaça e os direitos de fabricação. Os donos da fábrica Devonstar Industries Inc. se sentiram enganados, pois meses depois de venderem todo o maquinário como sucata, descobriram que fizeram um péssimo negócio.
     — Pretendem voltar a produzi-lo?
     — Sim, claro! Pronto! Pode ligá-lo.
    — Annon pressionou o botão de ligar e o androide produziu um assovio finíssimo. Abriu os olhos e falou, como que revigorado:
     — Annon, você conseguiu me consertar! Obrigado!
     — Não fui eu. Foi o senhor Borer que fez esse milagre.
  Dareer olhou para Borer, fez um monoajoelhamento e abaixou a cabeça, apoiando o antebraço atravessado na coxa, em reverência.
     — Obrigado, Pai.
     Annon então entendeu: Borer era o criador dos C1.
     — Então você é...
     — Sim, sou eu. — olhou para Dareer. — Levante-se, meu filho.
    — Jamais pensei que veria o pai pessoalmente. Todos diziam que o senhor havia morrido. — disse Dareer.
     — Não, filho. Estou bem vivo. Cansado da vida, mas bem vivo.
     — Mas por que se tornou técnico se o senhor os concebeu?
    — Senhor Annon , de onde acha que tirei o dinheiro para comprar o material para construí-los? Vivi durante muitos anos com os dividendos do que recebi pela patente, até que soube que ele saíra de linha porque a sua inclinação para os sentimentos havia sido considerada um defeito. Vi nisso uma oportunidade de negócio se o pusesse em produção novamente, e resolvi comprar os direitos de volta. Acrescentei o maquinário e as peças de reposição no acordo.
     — Diga-me, por que a Devonstar parou de fabricá-los?
    — Ele é humano demais. Mais do que nós. Um C1 jamais poderia dar um fim em outro robô, por exemplo.
   — Entendi. Um robô pacífico programado assim pelo criador, e com um bloqueio de programação no tocante a essa característica.
   — Engano seu. Devido a um pequeno defeito no desenho do processador que passou despercebido ao controle de qualidade da empresa, ele foi capaz de desenvolver raciocínio empírico, sentimentos e até religiosidade. mas a parte do bloqueio está certa.
     — Um robô religioso? — achou graça Annon.
    — Sim. Sabendo dessas características procurei refiná-las e consegui que eles se tornassem mais humanos do que eu mesmo então vendi a patente e pedi demissão. Por ele ser o ser humano ideal, mesmo sem ter nascido de uma mulher, tornou-se um incômodo para os figurões da empresa, pois isso não se refletiu em aumento das vendas. Pelo contrário, descobriram que esse pequeno grande “defeito” tornava a produção do processador mais cara, e como não podiam alterá-lo, pois eu já não estava mais na empresa e devido ao bloqueio, resolveram descontinuá-lo.
     — Annon, estou feliz por retornar. — disse Dareer, emocionado.
     — Eu também. Posso abraçá-lo?
     — Claro! Somos amigos, não?
     E Annon o abraçou como se fosse seu filho de verdade.
     — Bem, preciso ir. Em breve o C1 retornará ao mercado.
     — Posso lhe perguntar uma coisa? — perguntou Annon.
     — Claro.
     — Quando eu disse em breve, quis dizer quando a justiça nos der ganho de causa; a antiga fabricante quer que devolvamos a patente e todo o material a ela.
     — E eles têm chances de conseguir?
    — Estão desesperados porque os novos executivos da empresa descobriram que venderam a galinha dos ovos de ouro por uma bagatela. Há uma grande procura hoje por eles. Não há qualquer chance de ganharem a ação. Os C1 são nossos. Até mais ver. Entrarei em contato.
     Foi caminhando para a porta com a plataforma de transporte. Quando ia fechar a porta,     Annon perguntou:
     — Qual é o nome?
     — De quem?
     — Do seu robô.
     — Madeleine: é uma menina.
     Então Annon disse a Dareer:
     — Ouviu? Você tem uma irmã.
     Borer fechou a porta sorrindo.




sábado, 25 de maio de 2013

Após muito tempo, estou de volta. Pouco tempo de digitar e um acesso mais limitado à net foram os responsáveis. Espero que gostem!

Perdidos

22/07 2012

O coronel Marlan, piloto de testes da marinha americana, homem forte por excelência, estava agora diante do seu maior desafio: sobreviver num lugar inóspito. Conseguiu arrastar-se com dificuldade. Havia tentado ficar de pé, mas após ejetar-se do caça em chamas, distraíra-se vendo a trajetória descendente do avião e caíra de mau jeito, fraturando a perna. A dor cruciante era agravada pelo frio intenso.
Estava acima do círculo polar ártico; uma missão de rotina, uma falha mecânica por alguns momentos e chegara a pensar na imagem do seu corpo morto sendo iluminado pela aurora boreal; mas lá estava ele agora, sem comunicações, sem condições de sobrevivência, mas com toda a esperança do mundo.
Havia o GPS! Rezava agora para que as chamas não consumissem o aparelho. De qualquer forma, eles o encontrariam, pois não estava muito longe do local da queda; o problema era quando isso aconteceria.
Começou a checar os suprimentos e o kit de sobrevivência: lanternas elétrica e química, canivete suíço, ataduras, material para curativo e o melhor, suprimentos para quinze dias, fogareiro químico, pasta para fazer sopa instantânea, frutas cristalizadas, patê de carne, carne cozida e defumada, barras de cereal, conservas, etc.
Do conjunto de primeiros socorros tirou uma tala para a perna quebrada, encaixou-a e enrolou com ataduras. Tomou uma dose de morfina para eliminar a dor; ainda bem que a caixa de suprimentos também foi ejetada.
O frio era intenso: viu no termômetro trinta e dois graus negativos. Pegou uma muleta para a neve e ficou de pé bem a tempo de ver que um homem vestido como um marinheiro do século XVIII o observava. Como aquele homem poderia estar ali? De onde viera? Como sobrevivera àquelas condições extremas? Estas questões que a sua mente formulara seriam respondidas em breve, pois o homem estava se dirigindo a ele.
—Quem sois vós? Não vejo navio algum nas redondezas e vós não sois um marinheiro. — inquiriu o homem, apontando uma pistola antiga.
—Coronel Marlan, piloto da Marinha dos Estados Unidos da América.
—O que é um piloto? — perguntou com rispidez — Foste o responsável por aquele fogo lá adiante? O que é aquele objeto cor de prata em chamas?
—É o meu avião. Ele pegou fogo e eu ejetei a tempo. Quebrei a perna na queda.
—Queda de onde? Acaso vês montanhas aqui?
—Do céu.
—Do céu? És um demônio? Só pode ser, pois não te pareces com um anjo.— a pistola em riste se movimentava aleatoriamente, e Marlan já começava a sentir o suor brotar por baixo da roupa. Seu medo é de que ela disparasse, pois uma perna quebrada já era bastante por um dia.
—Por favor, cuidado com essa arma, ela pode disparar!
—Se ela disparar contra um demônio será um favor ao mundo.
—Mas não sou um demônio. Se eu fosse, estaria com a perna quebrada?
O homem olhou para baixo e ao ver as ataduras e a muleta, resolveu confiar nele.
—Está bem. Não sois um demônio, mas como explica o fato de voares?
—Aquele fogo lá é no meu avião, uma máquina voadora.
—Falas de modo estranho, homem estranho. Eu não o compreendo. Aquilo é pesado demais para voar. Deves estar mentindo.
—Eu posso explicar: você é um marinheiro, certo?
—No seu navio havia canhões?
—Sim, os melhores da marinha americana!
—Os canhões são máquinas.
—Então voas em canhões?
—Não, eu voava em outro tipo de máquina, um avião.
—É um tipo de navio que voa?
—Podemos dizer que sim. Ele se parece com um pássaro grande, de metal. Voa muito rápido e faz muito barulho e solta fumaça por buracos nas asas.
—Então é um demônio!
—Não, não é nada disso. Ele foi feito pelo homem.
—E por que ele caiu?
—Pegou fogo. Deu um defeito e o combustível começou a incendiar... — foi interrompido por uma explosão.
Subitamente o marinheiro olhou para o fogo e disse:
—Vamos sair daqui. Se o gelo rachar com esse calor, corremos perigo.
—Mas preciso aguardar o resgate aqui, ou vão pensar que estou morto!
—Vinde comigo homem, ou quando o resgate chegar encontrará um corpo para ser enterrado.
—Mas a minha roupa protege contra o frio. Posso esperar aqui por quinze dias, e só armar a minha tenda...
—Que tenda? A tua tenda estava em uma grande caixa?
—Sim, como sabe?
—Olha! — apontou com a pistola na direção da caixa que afundava, mais uma vez sacudindo-a perigosamente.
—Oh, não! O que vou fazer agora?
—Seguir-me ou perecer. — voltou as costas para Marlan e foi andando em direção ao norte. Após alguns minutos de caminhada, chegaram a um imenso iceberg. Mais alguns minutos andando em torno, viram um pequeno platô, quase ao nível do mar, onde estava encravado um veleiro do século dezoito.
—Lá está o meu navio, o Medusa! Aquela maravilha foi lançada ao mar em 14 de janeiro de 1791; não é uma beleza? Foi o meu primeiro navio, quando me tornei capitão.
—E quem é você?
—Alexander Holloway, capitão da Marinha dos Estados Unidos da América.
—Quando ficou preso no gelo?
—31 de Dezembro de 1794.
—Mas isso foi há 232 anos!
O capitão ficou lívido: arregalou os olhos, sem acreditar no que Marlan dizia.
—Mas isso foi há muito tempo! Talvez nossas famílias nem mesmo ainda existam!
—Mas é a realidade, amigo. Passaram-se 232 anos desde que encalhou aqui. Não sei como sobreviveram por tanto tempo, mas sei que é um milagre ainda estarem vivos.
—Venha. Descobriremos juntos.
Pegou a mão de Marlan e o ajudou a subir no navio. Inicialmente Marlan teve medo de subir as escadas, mas mesmo após dois séculos no gelo a madeira estava conservada como se fosse nova.
Foram descendo ao porão e Marlan avistou uma mancha escura no casco. Agora com a pistola no cinto, o capitão indicou-a com a mão recoberta por luvas de pele de foca; aproximando-se, ele e Marlan puderam divisar uma abertura; entraram por ela e chegaram a um túnel longo que desembocava em um local iluminado. Conforme andavam, o túnel ficava progressivamente mais quente, até que chegaram a uma imensa caverna quente como nos trópicos: havia todas as espécies de frutas e plantações de legumes e verduras.
—Este é o nosso mundo, coronel.
—Não vejo animais. Tem algum?
—Aqui produzimos tudo de que precisamos, mas não há animais terrestres.
—Como conseguem carne?
—Vinde comigo.
Levou-o á beira de um lago; em suas praias centenas de focas e leões marinhos descansavam tranquilamente.
—Então é assim. Que beleza!
—Eles vêm aqui sempre, e mesmo caçados jamais deixam de retornar.
—É vocês têm mesmo um pequeno paraíso aqui. Pena eu não ter encontrado tudo isso antes.
—Estás cansado do lugar de onde vieste, coronel?
—Muito cansado, capitão. Lá pode ser um paraíso para muitos, mas eu gostaria muito de ficar distante.
—Então és bem-vindo, amigo. Temos bastante espaço para mais um aqui. Quer que eu respeite a hierarquia, senhor?
—Não, absolutamente! O navio á seu, o senhor manda!
—Tens fome?
—Ainda não. Vão jantar agora?
—És convidado para a minha mesa esta noite. Aqui tens o necessário para te acomodares. Mandarei quer te avisem. Como está tua perna?
—Quebrada. Tem algum médico aqui?
—Não sei o que é um médico, mas temos um físico. Mandarei que venha te examinar.
Retirou-se.
—Quem diria coronel! O senhor preso numa caverna no Ártico, jantando carne de foca com marinheiros do século XVIII!
Começou a perscrutar o ambiente, admirando os objetos: um relógio-cuco totalmente entalhado e jacarandá, uma cama da mesma madeira com um colchão de pele de focam um baú enorme com fechadura pesada de aço, até mesmo uma bússola. Todos eram artigos de museu que valeriam uma fortuna em qualquer parte do mundo, mas que aqui eram objetos de uso diário.
Um marinheiro irrompeu à porta:
—Senhor, o capitão te convoca para o jantar. Tenho ordens para levar-te antes ao físico.
—Podemos ir então.
Saíram do camarote e enfiaram pelo corredor. O médico ficava praticamente ao lado do seu camarote, surpreendendo Marlan. Entraram e o doutor o recebeu com um aperto de mão efusivo.
—Bem-vindo coronel. Poderia sentar-te aqui?
Marlan sentou-se com dificuldade. O físico apalpou-lhe a perna e disse pesaroso:
—Receio que vá doer um pouco. Preciso alinhar o teu osso. Preparado?
—Sim, não se preocupe: tomei morfina há menos de meia hora.
—O que é morfina?
—É um anestésico, um preparado para diminuir ou eliminar a dor.
—Onde conseguiste isso?
—Carregamos na mala que levamos em viagem, para ocasiões como essa. Mesmo assim, usamos com parcimônia, pois a pessoa pode se viciar.
—Senhor, eu sou físico há muitos anos e nunca ouvi falar a respeito disso. É uma descoberta recente, não?
—Não, já existe desde         .
—Mas nós estamos em 1829. É impossível. Esse ano ainda não chegou.
—Doutor, acredite. De alguma maneira, vocês sobreviveram por cento e noventa e sete anos. Estamos em 2026.
—Quanto? — assustado, o médico não conseguia acreditar no que ouvia. —Tu fazes troça comigo! Sou um homem velho, meu coração não aguenta mais esta mofas!
—É verdade. Sinto muito, mas é verdade.
Uma transformação se operou no rosto do doutor: seu espírito se acalmando, o roto imediatamente refletiu o que lhe ia ao íntimo.
—Então isso explica as tuas roupas estranhas. Este não é um uniforme da Marinha da América do meu tempo. Um marinheiro não se vestiria assim.
—Eu sou um piloto, o uniforme é diferente.
—O capitão reportou-me o que disseste. Voas, não?
—Se tiver um avião, sim.
—Por favor, conta-me os avanços da ciência.
Então Marlan desfiou todo um rosário de descobertas da ciência: o rádio, os raios-X, a televisão, o avião, os transplantes, o bebê de proveta, o raio laser, o robô, etc. O homem o olhava com uma expressão de curiosidade misturada com espanto. A cada nome de descoberta arregalava os olhos e soltava uma “mais esta!”. Em determinado momento o coronel resolveu interromper a explanação para não cansar o seu ouvinte, mesmo que ele não aparentasse cansaço.
O mesmo marinheiro de antes chegou para convocá-lo:
—O capitão chama.
—Bem, detesto deixá-lo ir, mas ordens são ordens.
—Não vem conosco?
—Podeis ir à frente. Alcançá-los-ei.
O camarote do capitão, convertido parcialmente em refeitório, estava cheio. Vinte pessoas estavam presentes quando Marlan entrou, e todos se tornaram ouvintes atentos quando ele narrou os fatos, a ponto de esquecerem a comida, que naturalmente esfriou.
—Tudo isso é muito maravilhoso, mas será que é real? — surgiu a voz do Sr. Perkins, o imediato.
—Posso provar. — sacou do bolso uma televisão de tela dobrável, fina como uma folha de papel. Desdobrou-a e ligou, para espanto de todos, mostrando a programação de TV via satélite — Isto é uma televisão, concebida pare entreter, e muita gente realmente perde grande parte da sua vida em frente a ela. Pode ser dobrada e carregada no bolso. E isto é um relógio de pulso digital.
Todos se achegaram para ver os aparelhos.
—Mas quem construiu isso? — tornou Perkins.
—Nós. Sou americano também. Aqui estão os meus documentos.
Quando os que sabiam ler viram “Governo dos Estados Unidos da América” e “U.S. Navy” nos documentos, soltaram um “Oh!” espantados.
—Sim senhores, não nos demos conta, mas estamos no século XXI, com mais de duzentos anos de idade. A questão agora é se aceitaremos o coronel por aqui, uma vez que ele não deseja retornar ao seu mundo, ou se o  auxiliaremos a retornar. — disse o capitão.
—Precisamos deliberar capitão. Após o jantar falaremos a respeito.


Na manhã seguinte, Marlan acordou e sem perceber levantou-se e saiu andando. Lembrando-se da perna quebrada, levou a mão até ela e tocou-a com as pontas dos dedos, não sentindo dor.
—Posso entrar? — perguntou o médico. —Claro doutor. Entre.
—Coronel, como está perna?
—Acredito que curada. Não dói mais.
—Aqui as feridas se curam em vinte e quatro horas. Eu já esperava que acontecesse.
—Doutor, estive pensando: o que aconteceria se o mundo lá fora descobrisse que estão aqui?
—Provavelmente este lugar seria invadido por estranhos e estudado. Perderíamos a nossa casa. Por que a pergunta?
—Acredito que possam estar me procurando lá fora. Se descobrirem a entrada, logo a sua previsão será uma realidade. Este ano foi a primeira vez que esta zona apresentou bom tempo por um período longo o suficiente para ser mapeada. Por isso não encontraram o navio antes.
—Ficarás?
—Devo subir e descobrir se ainda me buscam. Se não, ficarei.
—Posso entrar?
—Oh, sim capitão. Entre.
—Temo que haja uma busca lá em cima. Alguns dos seus... aviões voam sobre as nossas cabeças. Falaste a verdade: eles fazem muito barulho.
—Capitão, devo retornar. Não posso deixar a minha família agora, tenho dois filhos pequenos. O Governo ampara órfãos de militares desaparecidos em serviço, mas é melhor que eu não desapareça.
—Não queres saber do resultado da reunião?
—Claro!
—Deliberamos que iremos todos contigo. Passamos tempo demais aqui. Eu pessoalmente pretendo procurar algum remanescente da minha família. Consertamos o Medusa e iremos embora navegando. Combinamos a história de que você nos encontrou paralisados dentro do navio. Vamo-nos!
Saíram por um túnel alternativo no rochedo ao lado do navio. Grandes rochas que tampavam chaminés secundárias do vulcão foram movidas e o calor começou a derreter o gelo.
 O capitão aproximou-se de Marlan:
 —Coronel, sairemos daqui em breve.
—Espero que não seja tarde demais.
—O Medusa já começou a movimentar-se. Vamos nos preparar. Precisamos embarcar.
Subiram com dificuldade pela escada de corda, pois Marlan não sabia o que era isso há anos. Quando puseram os pés no convés, o navio começou a estalar e a mover-se lentamente. Havia cem metros de superfície branca a vencer até um quebra-gelo que ajudava nas buscas. O Medusa foi navegando mansamente até o navio metálico, hasteando a bandeira branca.
O comandante da missão, capitão Nolan, falou ao seu imediato:
—Preciso largar o maldito uísque. Estou tendo alucinações ou aquilo é um veleiro de guerra de três mastros?
—Senhor, eu não bebo e estou vendo a mesma coisa. Se o senhor estiver louco, a loucura é coletiva.
O navio de madeira, com as velas sendo abaixadas, lentamente foi abordando o Santa Fé. O capitão Nolan esticou o pescoço para observar a escultura de uma mulher com cabelos de serpente encrustada na proa, que com a sua boca aberta e os olhos sem pupilas parecia urrar para o mar, como se quisesse abrir caminho entre as ondas. O capitão olhou para o imediato e levantou os ombros.
—Capitão, o senhor pode receber a bordo um colega perdido? — gritou Marlan.
—Coronel Marlan, é o senhor?
—Eu mesmo. Podemos ir?
—Senhor Hartmann, prepare a abordagem.
—Sim, senhor.
Nolan deixou-se ficar por alguns instantes olhando a movimentação de abordagem, apreciando cada detalhe que conhecia bem, até o momento em que aqueles homens de roupas antigas começaram a vir a bordo. a surpresa foi tanta que ele começou a pensar que em algum ponto lá atrás havia perdido o juízo.
Foi aguardá-los na prancha. Marlan adiantou-se, prestando continência:
—Coronel Willian Marlan, coronel da Marinha dos estados Unidos da América, piloto de caça Ares Magnum, perdido e sem a sua nave se apresentando! Capitão... Nolan — o disse, olhando para a plaqueta no uniforme do outro — Este é o capitão Holloway.
—Capitão Alexander Everett Holloway, da Marinha de Guerra dos Estados Unidos da América, turma de 1791.
O capitão Nolan os observou de cima a baixo e disse:
—Coronel, que tipo de brincadeira é essa? O senhor fica desaparecido vinte e quatro horas e volta com brincadeiras?
— Não senhor. Pode verificar. Este é o capitão Holloway, aquele é o Medusa, seu navio, e aquela é a sua tripulação, desaparecidos em 31 de Dezembro de 1794.
—Estes homens deveriam estar mortos há mais de duzentos anos, coronel. Isso é impossível!
—Não capitão. Somente não havia acontecido. Tanto é possível, que eles estão aqui.
—E criaram o maior problema do século para os nossos cientistas... e para mim. Tente incluir isso num relatório e manter o seu posto depois.
—Por alguma razão ficamos paralisados pelo gelo e não envelhecemos todo esse tempo, capitão. Podemos abusar da sua hospitalidade?
—Após milhares de perguntas, sim. Vamos à minha cabine. Senhor Hartmann, cuide para que estes homens sejam alimentados, e dê-lhes roupas adequadas para o frio. Não queremos que eles morram justamente agora.
—Quer conhecer o meu navio, capitão? —perguntou Holloway.
—Mais tarde. Vamos tirá-los daqui ante que fiquem presos novamente. Senhor Hartmann, mande que os dois navios naveguem lado a lado na frente, abrindo caminho para que o veleiro passe. Não podemos perder essa relíquia. O presidente vai adorar a surpresa.
E os navios quebra-gelo abriram caminho e rebocaram o Medusa com toda a sua tripulação para o porto mais próximo.
Como era de se esperar, a visão de um navio antigo rebocado por dois quebra-gelos causou estranheza no porto. Todos acorriam para vê-los logicamente se sentiam curiosos.
O Medusa aportou e todos estavam eufóricos para ver quem estaria lá dentro. Em meio à neblina, oficiais do Sea Star subiram a bordo.
O quadro era macabro: esqueletos já livres de pele e com restos de roupas, espalhados pelo interior do navio. Marlan correu até lá e encontrou o esqueleto do capitão Holloway sentado em frente a o espelho. Seus braços seguravam a gravata do uniforme de capitão que recebera do capitão Nolan.
Marlan disse, penalizado:
—É amigo. A morte sempre chega para todos. Às vezes ela apenas se esquece de nós por um tempo.
—Marlan, como reportarei isso ao comando?
—Se eu soubesse senhor, se eu soubesse...