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quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Como meus leitores não são muito amigos de postar comentários, não posso saber quem me visitou. Então deixo aqui o meu e-mail para qualquer contato, comentário, esclarecimento, etc. Em breve postarei novos contos, a demora é por causa do tamanho deles: vários passam de vinte páginas! Obrigado a todos que me dão o prazer de suas visitas e prometo responder aos e-mails na medida do possível.
mauricioasland@gmail.com

domingo, 15 de julho de 2012

Lembrete

Bem, mais uma etapa cumprida. Gostaria de ressaltar que a qualidade dos poemas não é tão boa, pois não é a minha especialidade. Agradeço a compreensão de todos que os leram e mais ainda aos que não o fizeram. Eles são parte da minha história de vida, mas não preciso gostar deles. Eu os digitei e publiquei apenas para registra-los antes que se perdessem, poi alguns estavam em papéis que já estavam bem degradados. Por isso, recomendo apenas os contos. Até a próxima.

Sempre Odiei Meus Pais



Sempre odiei meus pais. Quando eu queria faltar à escola para dormir mais ou ir à casa do Serginho brincar eles me proibiam. Quando já mais velho queria sair de casa sem dizer para onde ia, meus pais brigavam comigo e diziam que se acontecesse algo não saberiam onde me procurar.
Quando comecei a sair com os amigos e o Rafael me chamava para ficar até de manhã na boate, eu dizia que não podia porque meus pais brigariam comigo.
No dia em que vi, saindo para ir ao zoológico, o pai do Rafael brigando com ele por chegar de manhã completamente bêbado, pensei: “Velho ridículo! Rafael sabe muito bem o que faz!”. Comentei com os meus pais e eles concordaram com o pai dele.
O Cléber sempre me chamou para ir às festinhas que organizava onde ele transava com muitas mulheres sem camisinha e usava drogas injetáveis. Meus pais nunca deixaram.
Quando fiz dezoito anos e não servi às Forças Armadas, meus pais exigiram que eu ou fizesse um curso profissionalizante ou arrumasse um emprego.
Odiei tanto os dois que chorei trancado no meu quarto. Assim, quando levei para casa o meu primeiro cigarro de maconha ele foi prontamente encontrado e destruído. Nova bronca, e eu chorei de ódio outra vez.
Hoje estou escrevendo este texto como alerta aos pais, que estimulados por um batalhão de psicólogos, pedagogos e cientistas de 5ª categoria, os mesmos cujos filhos frequentam o noticiário policial diariamente, dizem sempre sim aos seus filhos ou acreditam que apenas conversar e deixa-los a cargo da escola resolve os problemas.
Serginho morreu ao cair de um poste onde subia para furtar fios elétricos.
Meus amigos que passavam a noite nas boates morreram quando o carro dirigido por Rafael, bêbado, esborrachou-se contra um pilar de viaduto e foi cortado ao meio.
Cléber teve três filhos soropositivos com três mulheres diferentes e provavelmente contaminou muitas outras, inclusive alguns homossexuais.
Graças ao curso profissionalizante que fiz, entrei numa multinacional como estagiário, enquanto fazia faculdade de administração à noite. Formado, estagiei por lá mesmo e hoje sou executivo da empresa. Meu primeiro filho acaba de nascer e as certezas que tenho são de que não odeio mais os meus falecidos pais e, como eles, me esforçarei muito para que o meu filho também me odeie.

Mudanças



O café caía na xícara enquanto Miles sonhava: um novo emprego, uma nova vida se descortinava à sua frente. Engoliu o café de um único gole, pegou o quepe preto e a lanterna e antes de sair do alojamento, deu uma boa olhada na foto da mulher, Anne, que estava muito feliz de ele ter conseguido um emprego após quase um ano procurando. Desceu os poucos degraus que o separavam do pátio e conferiu a cerca eletrificada em busca de alguma alteração. Nada.
Começou a sua ronda noturna em busca de algo estranho sem, contudo, encontrar nada mais do um morcego voando entre os prédios ou um gato vadio tentando conseguir um pouco de carne de graça. Miles admirava-se com os altos e espaçosos galpões e com a estrutura da indústria. Estava também muito feliz e enviou fotos da empresa para os amigos por e-mail para comemorar.
Passando pelo frigorífico, ouviu um som comum em instalações como aquelas: o som das facas roçando os ossos era mais do que normal, mas durante o dia. Eram 22:47 e não havia empregados trabalhando, ou pelo menos não deveria haver.
Foi andando pé ante pé para garantir que quem estivesse lá não o escutasse. O seu palpite era correto: o som vinha do galpão de desossa. Aparentemente algum funcionário resolvera fazer um serão não autorizado e era o seu dever e função impedir.
Havia alcançado o portão de entrada e o som se tornara mais forte e mais frenético, como se aquela pessoa se houvesse enfastiado e movesse a faca a esmo, sem preocupação com o resultado. Poderia ser alguém querendo sabotar o serviço inacabado de alguém.
Miles teve então uma ideia: deveria fotografar a cena como prova num eventual processo de demissão. Então foi pela lateral do prédio, alcançando a entrado do duto de ventilação e se esgueirou por ele até que tivesse uma visão exata dos acontecimentos.
 Teve ânsia de vômito ao ver o que se desenrolava no recinto: de fato era um funcionário, o encarregado Sonny Bertoli desossava uma carcaça...humana enquanto devorava, crus mesmo, os pedaços retirados.
O corpo estava pendurado de cabeça para baixo pelos pés e a pele fora descolada do tronco como um pulôver que pendurado à altura do peito, escondia o rosto.
Tinha a impressão de que era o corpo de uma mulher, que obviamente não seria uma funcionária, uma vez que lá não trabalhavam mulheres. Ele deveria ter capturado aquela vítima fora dali, talvez uma passante, quem sabe uma mendiga.
Miles pegou o celular para fotografar a cena, mas esqueceu do flash. Quando viu o flash, o encarregado olhou imediatamente na direção da grade. Miles, descoberto, passou a fugir para salvar a própria vida. Ficou um segundo preso por uma farpa do revestimento interno do duto, o suficiente para que Sonny se aproximasse bastante dele. Correndo como jamais fizera antes, conseguiu abrir novamente vantagem, subindo pela escada da grua de desembarque, entrando na cabine e trancando a porta. Sonny, o encarregado, estava disposto a dar a Miles o mesmo destino da infortunada mulher. Mas Miles não venderia tão barato a sua vida; percebeu que o gancho da grua estava bem encostado em um tonel empilhado atrás do assassino. Seria a sua última cartada, teria que funcionar.
Apertou a alavanca de avanço e o gancho empurrou o galão, que caiu em cheio sobre Sonny. Morte instantânea. O portão se abriu e o patrão, Walt Cherkowsky, entrou e correu na direção do corpo. Quando Miles chegou ele disse:
— Quem fez isso com ele? Foi você?
— Fui eu, senhor Cherkowsky. Eu o vi devorando o corpo de uma mulher na sala de desossa então ele correu atrás de mim para me matar. Consegui derrubar o tonel em cima dele com a grua.
— Seu celular está tocando. — disse o patrão.
Miles ficou lívido quando leu a mensagem: “Miles, Anne está com você? Ela saiu de casa dizendo que iria lhe fazer uma surpresa levando um bolo e ainda não voltou. Sabe se ela vai demorar? Sua sogra”.
— Ela não teve tempo nem de gritar. Nós a trouxemos sem que você percebesse pela entrada secreta.
O golpe da lâmina foi certeiro no pescoço de Miles. Caído no chão com o telefone ainda na mão, o sangue jorrou da jugular até que a sua vida se esvaísse com ele.

Identidade



Será inesquecível
O seu olhar de mistério;
Emanação de energia
Constante em mulheres solitárias.

Duas personalidades,
Dois destinos,
O charme paira no ar,
Trazendo consigo
Um enigma:
Você existe mesmo,
Ou será uma fantasia da minha imaginação?

Mas você segue impenetrável
Imune é seu interior
A todos os olhares alheios.
A beleza da simplicidade
De quem conquista
Sem querer,
Sem saber,
O coração dos outros.

Impera dentro de mim
Uma força maior do que a razão;
A noite é quente, a quinze graus suo,
O corpo ferve, não durmo.

Sua ausência
Esvai minhas forças,
E lentamente
A energia vital
É sugada, comprometida.

Relógio



Relógio
Amigo e inimigo
Aliado e oponente,
Serve-me de tela
Onde se projeta um filme
No qual você é a estrela.

Novos momentos de conversa,
Seus segredos, meus segredos,
Estrelas transmutavam-se
De ursos em violões
E destes em bolas de vôlei...

E aquele amor
Sobrenome de amizade,
Resistiu a treze longos meses
E está pronto para crescer
E lhe envolver novamente.

Espero que me aceite...
Fiquei longo tempo distante
E voltei para você
Sincero,
Devotado,
Carente,
Mas esperançoso
De que você ainda me ame.

E no relógio baterão as horas que quisermos.

30/04/1998