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quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Regresso

     David passou a mão pelos cabelos negros, apreciando o contato dos fios sedosos que se infiltravam entre os dedos como um lago singrado por um barco, a água o envolvendo e passando rápido, logo reunindo-se à frente e deixando para trás os desenhos em relevo do casco de um bote de madeira.
     Tomou o barbeador, e após passar a espuma com o pincel, começou a fazer a barba com pressa, pois precisava correr para pegar o avião para Dublin.
     Lá fora o vento sacudia as árvores para todo lado, raminhos apontavam para o céu como dedos clamando por sol e calor, ajuda contra o frio cruciante. A neve não cobrira a cidade, a velha brancura não abrira suas asas nem deitara como sempre sobre justos e ímpios, ricos e pobres.
     Birminghan era especialmente fria. Em breve, inexoravelmente, toda a cidade seria engolida pelo manto branco, então a estrada para o aeroporto ficaria interditada. Precisava apressar-se.
     Pegou o casaco, casca de um fruto formado de vários suéteres e um colete. Sentia-se incomodado em usar tantas roupas, o que restringia muito os seus movimentos. Sair de casa para ele era um suplício, por essa razão havia feito a opção de trabalhar no estilo SoHo havia dez anos.
     Não podia afirmar que tinha muitos laços de amizade na vizinhança, devido à vida que levava, de molusco sempre encerrado em sua concha. De alguma forma, a trágica morte de Anne havia contribuído para isso: ele havia se fechado em seu mundo de computadores que se dispunham como uma redoma que englobava a sua mesa.
     Lembrava-se como se fosse hoje: havia saído para andar um pouco deixando a esposa dormindo. Parara um minuto para admirar os cabelos ruivos como a relva seca de outono que cobria o platô onde a sua família havia construído a casa cento e cinquenta anos antes.
     O quarto todo decorado em rosa como ela quisera anos antes lhe causava claustrofobia, pois tinha problemas com a necessidade de Anne em superexpor a sua feminilidade já flagrante. Aquela profusão de rendas, tecidos brilhantes e frufrus surgira da impossibilidade de gerar os filhos que ela tanto sonhava. Adotar jamais fora uma opção, pois ela jamais admitiu adotar. 
     Haviam mudado para a casa solidamente postada na beira do penhasco, onde o barulho das ondas lá embaixo servia como um tranquilizante natural. Anne melhorara pouco desde então.
     Algo não corria bem com ela naqueles tempos. Pesadelos, gritos durante a madrugada e noites em claro denunciavam que pouco a pouco a mulher que David amava estava se deteriorando física e mentalmente.
     O fato de querer se desfazer dos cavalos que tanto amava era um indicador de que algo terrível estava para acontecer, mas Anne se recusava a admitir que estava caminhando a passos largos para a aniquilação.
     Quando voltava do seu passeio, David viu um bando de pássaros voando em torno da casa, e logo pôde identificar que eram corvos. Num átimo percebeu que poderia ter acontecido algo com a esposa. “Corvos atacam cadáveres”- pensou.
     Irrompeu a correr na direção da casa, as pernas roçando na relva seca, já não se importava em tropeçar nas pedras, tendo como destino a porta da frente, a escada para o quarto dela, subindo sobre o fio de esperança que dizia que ele estava enganado.
     Logo sua ilusão dissipou-se como todas as ilusões. Na mesma posição que a deixara, Anne jazia exangue, enquanto o precioso líquido vermelho que suas veias dos pulsos haviam vertido formavam dois pequenos rios que imiscuíam-se nas frestas do assoalho de tábuas corridas que ele sempre prometia, mas jamais calafetou.
     Talvez ela tivesse escondido o bisturi sob a cama e cortado os pulsos durante a noite, estando já morta havia horas. David admirando os cabelos que tanto amava, não conseguiu perceber o sangue já coagulado no chão antes de sair.
     Ela estava morta e os corvos haviam sentido o cheiro do sangue. Os pavorosos pássaros tentavam a todo custo entrar pela janela, buscando uma pequena porção do que pra eles era alimento, despidos totalmente da noção de que aquilo que tanto desejavam havia sido um ser humano, totalmente desapercebidos do quanto havia sido amada.
     David caiu de joelhos, os olhos embaçados de lágrimas, e derramou o pranto mais doloroso, convulso e sofrido de toda a sua vida. Houvesse algo que pudesse guindar a esposa de volta à vida, seriam a dor e as lágrimas de David.

     Acordou daquelas lembranças e percebeu que estava na contramão da estrada, a tempo de evitar um acidente. Estava chegando ao aeroporto. Alguns minutos depois, percorria a Coventry Road, virando à direita para a Viking Road e indo dela ao estacionamento.
      Dirigiu até o estacionamento, onde deixou o carro ao lado de um Aston Martin preto.
      Saiu arrastando a mala de rodinhas e entrou no elevador. Feita toda a práxis de embarque, foi pelo corredor sanfonado até o avião que decolaria em uma hora. Este item de mobiliário para ele sempre era um desafio a vencer, pois sempre corria para embarcar, e a sensação de entrar nele era estranha.
     Dormiu a viagem toda, e despertou com o enorme pássaro batendo as rodas do trem de aterrissagem no chão, o clássico ruído das rodas derrapando um pouco na pista de asfalto.
     A viagem por intrincadas estradas que serpenteavam pelas encostas foi tranquila. David pudera ver os malditos pássaros eternamente vestidos de luto voarem nas laterais do carro alugado, aparentemente desconhecendo que o homem ali sentado pretendia um dia caçá-los até que os seus crocitares jamais fossem ouvidos novamente naqueles vales e platôs.
     A casa estava vendida, mas ele pretendia erradicar as aves de mau agouro antes da entrega das chaves à compradora. Havia um ano que Anne se fora, e David fora até a casa parcas vezes. Certa vez havia esquecido dela.
     O telefone tocou:
     — Boa tarde, Mr. MacDermott. Sou Linda Freehan, a compradora da sua casa. A senhorita Lindsay disse-me que o contataria nesse número...
     — Sim, senhorita Freehan. Sou David MacDermott. Está com os documentos? Pretendo assiná-los hoje mesmo.
     — Há alguma razão especial pra querer se livrar tão rápido da sua casa, senhor MacDermott? —perguntou a mulher, com voz intrigada.
     David começou a tentar explicar, até que percebeu que ninguém o ouvia do outro lado da linha. O telefone celular estava totalmente  mudo.

     Mais quinze minutos e divisou, sentada na varanda, uma mulher ruiva, com os mais belos olhos verdes que David já vira na vida. Estava usando roupas de inverno, mas ele pôde perceber que tinha belas formas sob todo aquele tecido.
     Parou o carro e andou desanimadamente em direção àquela mulher deslumbrante, que lembrava Anne. Havia uma cadeira ao lado dela, na qual ele se sentou.
     — Desculpe, mas não resisti e pesquisei na internet a história da sua família. Sei porque está vendendo a casa. Ela lhe traz recordações dolorosas...
     — Senhorita Freehan, a história da minha família ou o que quer que tenha acontecido nesta casa é passado, e diz respeito apenas a mim. Restrinja-se a selar o negócio que viemos fazer.
     — Venho lhe observando há meses — disse ela se levantando e se postando atrás da cadeira de David — secretamente fui interessando-me por você, e quis comprar a casa na intenção de convencê-lo a morar aqui comigo.
     Linda dizia isso enquanto massageava os ombros de David, que por poucos momentos deixou-se levar pela sensação agradável, mas logo teve um ataque de fúria:
     — Você enlouqueceu? Morar na casa onde a minha esposa suicidou-se? Morar com uma desconhecida e ainda por cima com uma mulher parecida com Anne? Jamais!
     — Você vai gostar de mim, querido! — disse ela com raiva, enquanto desferia uma coronhada fortíssima na cabeça de David, que viu a luz do dia deixar de repente os seus olhos, sem que tivesse tempo de esboçar qualquer reação.

     Acordou amarrado em sua cama, com Linda em pé em frente a ele, com um sorriso largo nos lábios.
     — Dormiu bem, querido? — perguntou, não conseguindo conter a gargalhada.
     — O que quer comigo? Ai! A minha cabeça dói!
     — Confesso que eu o queria, mas agora creio que você é fraco demais pra ser meu homem. Vou fazê-lo assinar os papéis, depositarei o valor da compra na sua conta e vou fazê-lo sumir. Isso não vai despertar suspeitas.
     — Não vai sair-se bem dessa, Freehan! O tabelião está vindo para a assinatura dos papéis! Ele vai chamar a polícia!
     -— Vou forçá-lo a me ajudar. Tenho a filha e a esposa dele como reféns em um local secreto. Ele vai fazer o que quero ou o meu cúmplice mata as duas. Ele vai fazer o que eu quiser.
     O som de um carro estacionando fez com que Linda virasse repentinamente a cabeça em direção à janela.
     — É ele! Ele já sabe o que tem que fazer. Adeus, senhor MacDermott! Vou deixá-lo agora.
     Desceu as escadas, encontrando o tabelião logo que chegou ao último degrau.
     — Está tudo pronto, Dempsey?
     — Sim, senhora.
     — Onde está ele?
     — Lá em cima, no quarto. Ele vai colaborar.
     — Não precisa. Eu já imitei a letra dele em várias situações.
     — Então David é totalmente dispensável?
     — Sim. — disse o homem, pensando em uma maneira de sair dali vivo.
     — Então posso ainda me divertir antes de matá-lo. Que oportunidade!
      Subiram as escadas. Os dois entraram no quarto, Dempsey com o livro de registro e Linda com a pistola 45 na mão.
     — Assine a venda! — disse Linda, olhos vermelhos, a beleza angelical substituída por uma expressão de ódio.
     — Acha que não sei que vai me matar? Não vou assinar nada. — respondeu David, decidido — O que você fez com seus ex-maridos? Vai dizer-me que estão todos vivos?
     — Ele pode falsificar a sua assinatura. Já que não quer assinar e manter a sua dignidade, vou matá-lo como a um rato. — sentenciou a mulher, após virar rapidamente a cabeça na direção de Dempsey.
     Pôs o contrato sobre a cômoda, Dempsey tomou da caneta e assinou em lugar de David. Ela sacou uma seringa e ordenou:
     — Dempsey, injete nele esse tranquilizante. Tenho uma banheira cheia de ácido para dissolver o seu corpo. — disse enquanto olhava para David com um sorriso sádico.
     Retirou-se para guardar os papéis no carro. Desceu as escadas lentamente, passando os lindos olhos verdes pela decoração, saboreando a vitória.
     A pasta caiu da mão e os documentos espalharam-se, alguns voando levados pelo vento que entrava pela porta escancarada.
     Linda não soube o que a atingiu. Viu um sapato ao seu lado, e pensou que fosse Dempsey. Não percebeu que um tabelião em serviço não usaria mocassins e jeans. A pancada na cabeça foi fortíssima, o ruído foi alto, claramente ouvido.
     Acordou com uma dor horrível na cabeça. Esforçou-se para abrir os olhos e perscrutou o recinto. Estava sentada e amarrada numa cadeira e podia sentir que o cabelo estava endurecido, logo compreendendo que era sangue do ferimento causado pela pancada.
     Estava no banheiro. Sentiu que era observada, e só pôde soltar um grunhido quando avistou David e Dempsey parados na porta, olhando-a atentamente. Estava quase morta, sentindo um cansaço enorme.
     Havia perdido muito sangue. Fora uma idiota em acreditar que Dempsey ficaria a seu lado para proteger a esposa e a filha. Sua maestria em corromper pessoas humildes também não funcionaria desta vez. Desceu os olhos, percebendo que estava amarrada. Havia sangue por todo lado, inclusive no seu corpo.
     Subitamente lembrou-se de que havia ácido na banheira; se estavam no banheiro, era para que David fizesse com ela o que ela queria fazer com ele. “O feitiço virou contra a feiticeira”, pensou.
     — Então eu vou me derreter por você, não é? — disse, a voz saindo meio rouca por causa da fraqueza.
       — É verdade. Vou fazê-la fluir. Disparou uma gargalhada pavorosa.
      — Veja, solte-me e eu não me vingarei, ok? Só quero ir embora pra minha casa pra cuidar desse ferimento.
     — Você vai ofender a minha inteligência de novo? Já fez-me de palhaço uma vez e vai tentar de novo? Tenha paciência!
      — Não pode me culpar por tentar. Vai usar a minha banheira mesmo?
      — Claro! Já que você fez a gentileza de enchê-la pra mim, nada mais justo que eu seja cavalheiro e a deixe ir primeiro...
     Linda teve um calafrio. Nada indicava que ele a mataria antes, provavelmente ela se derreteria, sentindo dores atrozes enquanto a morte não viesse. Decidiu que adiaria ao máximo o martírio, à espera de um milagre.
     “Se pelo menos pudesse chegar a um celular, poderia pedir ajuda”, pensou. Olhou em volta e para a porta, quando David disse:
     — Não há escapatória. Sei no que está pensando. Todos os celulares estão escondidos.
     — Faça logo o que tem que fazer! — David tentou se aproximar — Espere! Antes uma curiosidade: o que houve com a sua mulher?
     — Ela estava com uma depressão profunda, e morreria em breve. Eu só abreviei o seu sofrimento.
     — Mas você disse que a encontrou morta!
     Eu sou Caim, não sou David! David a encontrou morta, mas quem matou fui eu. Ele não sabe que eu existo. Sou bonzinho. Todos têm que morrer um dia, eu só evito que esperem demais.
     Mais uma gargalhada insana. Isso dificultava as coisas. Pensou que estivera tratando com um David assassino, mas era pior: uma personalidade alternativa assassina.
     O pior castigo para um serial killer como ela era virar presa de um igual. Caim a pegou e colocou dentro da banheira, ignorando os seus gritos. Não havia viv'alma por perto para ouvir os seus gritos.
     Enquanto via o tronco e o rosto de Dempsey e de Caim aparecendo para olhá-la em seus estertores, via as faces das suas vítimas passarem diante dos seus olhos. Em seus últimos momentos, fez um agradecimento, não sabia a quem, por livrá-la daquela compulsão de matar.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Gente, devo dizer que há um erro proposital no texto do Santo Diário. Como todos os textos antigos, há incoerências. Esse erro foi proposital, para criar a ilusão de realidade. Obrigado pela compreensão.

terça-feira, 9 de maio de 2017

O Que Restou


Foi o que restou:
Lábios que não tocamos,
Corpos que não envolvemos
Lençóis que não sujamos.

Noites que não compartilhamos
Estrelas que não contamos
Declarações que fiz
E não recebi.

Um presente de distância
Um futuro de ausência
Um amor que vivi
Mas somente eu senti.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

      Hoje posto o primeiro capítulo de um romance que estou escrevendo. Chama-se: O Santo Diário.


Parte I

     Estes são os meus escritos, que narram minha vida e o meu ministério. Ainda não decidi se revelá-los-ei, então até lá ficarão escondidos em local seguro. Dividi-los-ei em partes para tornar a leitura mais fácil.
  Sou Yeshua Ben Yussef, “O Messias” como me chamam meus seguidores, ou o "Grande Taumaturgo", como me chamam os meus conterrâneos que não me suportam. Minha mãe se chama Miriam: era uma linda jovem que servia ao Senhor como donzela do Templo, mas meus avós desejavam que ela se casasse. Seus lindos cabelos castanhos eram cuidadosamente cobertos com o lenço para que apenas Deus os pudesse ver. Era de baixa estatura, de compleição delicada, mas tinha uma força que pude comprovar mais tarde. Sua tez era morena, mas estranhamente imaculada e sedosa como se tivesse sido sempre untada com os melhores óleos do Egito. Camponesa de origem nobre, mas caída na pobreza, estava prometida em casamento a Yussef, bem mais velho e pai de vários filhos; ele era carpinteiro, um homem com a extraordinária capacidade de transformar o belo cedro do Monte Líbano em móveis finos, o que lhe garantia bons lucros com as encomendas das pessoas mais abastadas. Seus cabelos que já estavam bem tingidos pelo branco dos anos e eram longos, e em sua homenagem deixei que os meus crescessem também, quando iniciei o meu ministério. Era forte e musculoso, de aparência surpreendentemente jovem e, a não ser pelas cãs, ninguém seria capaz de imaginar a sua idade.
     Eis que antes de se casarem e viverem juntos, minha mãe ficou grávida pela ação do Espírito Santo durante o sono, e quando se levantou sem demora foi até ele para participar-lhe da boa nova, o que causou uma reação de desconfiança. Yussuf era justo: não queria denunciá-la, o que seria a sua morte certa, e por amor àquela jovem donzela pensava em deixá-la, sem que ninguém soubesse. Sob o pretexto de trabalhar mais perto de Jerusalém, ele a deixaria aos cuidados de meus avós maternos e zelaria pelo seu sustento à distância, pois não seria capaz de abandoná-la de verdade.
     Enquanto pensava nisso, o Anjo do Senhor lhe apareceu em sonho, e disse: “Yussuf, filho de David, não tenha medo de receber Miriam como esposa, porque ela concebeu pela ação do Espírito Santo; ela dará à luz um filho, e tu dar-lhe-ás o nome de Jesus, pois ele salvará o teu povo dos seus pecados”. Tudo isso aconteceu para se cumprir o que o Senhor havia dito pelo profeta: "Vejam: a virgem conceberá, e dará à luz um filho. Ele será chamado pelo nome de Emanuel, que quer dizer: Deus está conosco.”.
     Quando acordou, meu pai fez conforme o Anjo do Senhor havia mandado: casaram-se e levou minha mãe para casa; e eis que sem conhecê-la como mulher, aguardou que desse à luz um filho.
     Chegando a época do recenseamento ordenado por Quirino, o governador da Província da Síria, todos foram intimados a retornarem às suas regiões de origem e meu pai apressou-se a retornar à sua, a cidade de Beth-ehelem, na Judéia. Bem próximo da cidade, tendo a minha mãe sentido as dores do parto iminente, procuraram uma estalagem em que pudessem dormir e se abrigar do frio intenso para que ela me desse à luz.
     Eu, Jesus de Nazaré, da Casa de Davi, nasci não em um berço de ouro, como esperavam os meus conterrâneos judeus, mas em uma simples manjedoura, um lugar onde criaturas inocentes faziam o seu pasto, talvez um símbolo do que o povo faria comigo em nome das podres instituições. Estavam presentes um jumento e uma vaca que me aqueceram com o seu hálito quente. Seguindo uma estrela que navegava nos céus, pastores chegaram para me adorar e espalharam a notícia pela cidade, pelo menos para os poucos que os ouviram. Pastores não eram bem vistos naquela época, o que não mudou muito até hoje. Então meu pai me deu o nome de Jesus, receoso de que meu nome me denunciasse.
     Eis então que alguns magos do Oriente chegaram a Jerusalém, e perguntaram: "Onde está o recém-nascido rei dos judeus? Nós vimos a estrela que o anunciava no Oriente, e viemos para lhe prestar homenagem.”.
        Ao saber disso, o rei Herodes ficou alarmado, assim como toda a cidade de Jerusalém.
      Ele então reuniu todos os chefes dos sacerdotes e os doutores da Lei, e lhes perguntou onde o Messias deveria nascer. Eles responderam: “Em Belém, na Judéia, porque assim está escrito por meio do profeta: ‘E você, Belém, terra de Judá, não é de modo algum a menor entre as principais cidades da região, porque de você sairá um Chefe, que vai apascentar Israel, meu povo’ ”.
      Então Herodes chamou secretamente os magos e investigou junto a eles sobre o tempo exato em que a estrela havia aparecido.
      Depois, mandou-os a Belém, dizendo: "Vão, e procurem obter informações exatas sobre o menino. E me avisem quando o encontrarem, para que também eu vá prestar-lhe homenagem.”.
Depois que ouviram o rei, eles partiram. E a estrela que tinham visto no Oriente ia adiante deles, até que parou sobre o lugar onde estávamos.
      Ao verem de novo a estrela, os magos ficaram radiantes de alegria, seguiram-na e encontraram uma estalagem, cujo porão, como é o costume, abrigava os animais durante o inverno.
      Quando entraram na casa, perguntaram ao estalajadeiro se lá havia uma mulher grávida e seu marido, que lhes respondeu que nos dera o porão, pois não havia mais vagas. Qual não foi a sua alegria quando me viram com a minha mãe! Ajoelharam-se diante de mim e me prestaram homenagens. Depois, abriram seus cofres, e me ofereceram presentes: ouro, incenso e mirra; disseram à minha mãe que o ouro representava todas as riquezas do mundo para o Rei; o incenso significava a minha origem divina, e a mirra por representar a imortalidade.
      Dormiram no chão no pouco espaço que sobrara, e nos deixaram uma epístola relatando que haviam sido avisados em sonho para não voltarem a Herodes, partindo para a sua região, seguindo por outro caminho. Quando acordamos no dia seguinte, encontramos a epístola, mas não a eles.
     Então naquela noite o Anjo do Senhor apareceu em sonho ao meu pai e lhe disse: "Levanta-te, pega o menino e a mãe, e foge para o Egito! Fica lá até que eu avise, porque Herodes vai procurar o menino para matá-lo”.
      Antes que o pior acontecesse comigo, meus pais fugiram para o Egito buscando salvar-me, instruídos por um anjo que apareceu à minha mãe. Enquanto meu pai foi à pé nos guiando, viajamos minha mãe e eu no lombo de um jumento, para o Egito, onde um grupo de sacerdotes exilado havia fundado um templo na ilha de Elefantina, no Nilo.
      Lá ficamos até a morte de Herodes, para se cumprir o que o Meu Pai havia dito por meio do profeta: "Do Egito chamei o meu filho”.
     Quando Herodes percebeu que os magos o haviam enganado, ficou furioso. Ordenou então, calculando a idade pelo que tinha averiguado dos magos, que todas as crianças de Belém e de todo o território ao redor de dois anos para baixo, fossem massacradas, e todos os que tentassem impedir tivessem o mesmo destino. Assim, descobri cedo a intolerância dos homens.
      Então se cumpriu o que fora dito pelo profeta Jeremias: “Ouviu-se um grito em Ramá, choro e grande lamento: é Raquel que chora seus filhos, e não quer ser consolada, porque eles não existem mais”.
       Em Belém, teria sido tolerado até me tornar adulto, não fossem as pequenas rusgas entre meu pai e os carpinteiros locais, que o invejavam pelo seu talento com a madeira. Então a minha tendência inata para falar demais se encarregou de lhes dar armas para se vingarem de nós. Denunciaram meu pai às autoridades como fomentador de uma rebelião e ele precisou recorrer ao seu amigo José de Arimateia para que nos conseguisse um esconderijo. José havia me ouvido falar de amor, fé e perdão, palavras impensáveis nestes nossos tempos em que hipocrisia, traição e martírio são as palavras de ordem, se encantando com o que ouvira; então lhe disse que tinha amigos em um mosteiro essênio, e se encarregaria de me asilar por lá. Meu pai foi para a Galileia, enquanto eu atravessei o deserto para me esconder. É estranho como o deserto parece-me um símbolo. Precisei atravessá-lo três vezes: para sobreviver, para ser instruído e para poder iniciar a minha missão. Matatias, o criado de José, me acompanhou.
      Lembro-me de quando ingressei no mosteiro essênio: após a cruciante travessia do deserto, era noite quando vi ao longe a silhueta da construção que seria a minha casa. Estava escuro, noite de lua nova. Postei-me no umbral para solicitar a permissão para a minha entrada.
      O irmão sentinela Isaías veio para me atender, a voz rouca emergindo dos fios de barba grisalhos para me interpelar:
       — Quem vem aos essênios? Se fores judeu sejas bem-vindo; se não, sejas ainda mais.
    Vislumbrei aquele sujeito pequeno, da minha altura, altura de um menino de treze anos: sem dúvida ele não deveria ser muito respeitado lá fora, onde a força mandava no mundo, força essa que não parecia ser a sua principal característica. Entretanto, escorpiões são pequenos, mas podem matar um homem. A sua figura curvada pelo peso dos anos e vestida com uma túnica puída e amarelada despertou em mim uma incrível sensação de tranquilidade, e assim descobri que ali poderia ser um lugar agradável para viver.
      Ao mesmo tempo, observei que seu discurso de aceitação dos gentios seria perigoso em qualquer lugar que não fosse aquele, mas ali estaria seguro.
    — Meu nome é Jesus, filho de José, carpinteiro da Galileia, da casa de Davi. — disse eu, ligeiramente embaraçado com a visão do homúnculo atarracado e de pele crestada pelo sol.
      — Jesus? Onde já ouvi este nome?— disse ele, fazendo uma careta horrível, onde o dedo na vertical cruzando totalmente os lábios parecia o tronco de um arbusto, aparente apenas por causa da refeição de alguma ovelha; além disso, ele virava a cabeça para os lados como um pássaro. — Oh! Já me lembro! É tu aquele que nos foi enviado para instrução na Doutrina da Verdade! Bendito seja aquele que vem em nome do Senhor! Entra, entra! Tens fome? Como chegaste até aqui? Vieste sozinho?
      As perguntas derramavam-se como vinho em uma cratera; os braços movimentavam-se como se me admoestasse severamente. Qualquer um que visse a cena mas não ouvisse as suas palavras acreditaria nisso. Eu me perguntava que tipo de vida teria a partir dali e se seria útil à comunidade, uma vez que não fui capaz de aprender o ofício de carpinteiro, ainda que este por si só não me garantisse a sobrevivência junto ao meu povo. Eu não era meu pai terreno, e o mundo assegurava-se de me lembrar disso a cada momento. Ainda hoje, não ser capaz de aprender a profissão da família pode ser fatal para um menino, que geralmente herda a oficina de artesão e deve sustentar os irmãos e irmãs mais jovens e a mãe na ausência do pai. Meus meios-irmãos eram muito mais velhos, e já casados não tinham muito contato conosco. Infelizmente, mais tarde em minha vida, a arte do meu pai morreria com ele.
      Adentramos a um recinto onde todos faziam comumente a suas refeições e após uma refeição frugal (como descobri mais tarde serem todas por ali) que me recuperou da passagem noturna pelo deserto, preparava-me para dormir quando alguém entrou em minha cela. Levantei-me de um salto, afinal estava em perigo, o que era a causa do meu retiro e não deveria encarar aquela situação normalmente. Reagi com indignação, como seria de se esperar em uma situação como essa, preparando-me para lutar, se preciso fosse:
      — Que fazes aqui? Não chamas à porta? — inquiri rispidamente.
Um sorriso que vi muitos anos depois, mas que estava destinado a me entristecer da maneira mais terrível respondeu-me:
     — Tu és Jesus, não? Sou Yudah Ishkhariot. Venho buscá-lo para uma audiência com o venerável Matheus, o nosso irmão superior.
     A mão fez sinal para que eu o seguisse. Acompanhei-o pelo corredor iluminado pelos archotes, analisando o seu porte e trejeitos. Ali todos tinham trejeitos pouco usuais.  "Deve ter a minha idade — pensei — mas a sua aparência sugere ser mais velho. Por que será que José de Arimateia disse-me que eu seria o único rapaz por aqui se existe este, como é mesmo? Ah sim, Judas, Judas Iscariotes".
     — Estás aqui há muito tempo, Judas? Pareces mais velho do que o teu tamanho sugere. O sorriso voltou-se, eclipsou-se e levou um dedo aos lábios exigindo silêncio:
    — Aqui falamos pouco durante a noite. Nossos irmãos precisam dormir. O dia é de tarefas, e o nosso Deus gosta do nosso trabalho. A propósito, deves saber que aqui não há privacidade; nossas celas não têm portas (como percebestes), e nenhum de nós tem nada de seu...
      — Qual é a tua idade? — esperei a resposta, atalhando as suas palavras.
      — Silêncio! Não vês que deves guardar silêncio? —
      Olhou-me à luz da lâmpada de óleo que iluminava parcialmente o seu rosto e disse:
      — Está bem, tenho treze anos. Vem.
     Naquele momento, percebi uma diferença marcante entre nós: enquanto eu era dado à verborragia, Judas era incisivo, direto, inexorável. Não preciso dizer que entre ele e mim instaurou-se uma admiração mútua: eu gostava da sua capacidade de se fazer entender com poucas palavras e ele gostava da minha capacidade de dizer as coisas indiretamente, por vezes fazendo com que os outros aceitassem a minha opinião sem se darem conta do ocorrido.
      Isso seria suficiente para dar início a uma relação de cumplicidade entre quaisquer outras pessoas, mas não entre nós. Por vezes ele guardava-se distante, por vezes eu; eu sabia que o nosso entendimento não pararia por ali, mas muito me culpei por maltratar um amigo, enquanto estava na realidade marcando uma distância necessária no porvir.
      Judas sempre me pareceu resignado simultaneamente à sua revolta contra os romanos e ao seu destino como monge.
       Virou-se para mim, dizendo:
      — A vida no deserto é dura: envelhece pessoas, destempera caráteres, aguça a maldade, aflora a bondade; neste turbilhão de emoções por vezes antagônicas, o que acontece contigo?
      — Talvez todas elas. A profecia cumpriu-se integralmente em mim... Mas espera! Como fizeste para saber o que eu estava pensando? Eu pensei e tu falaste!
       — Não sei. — respondeu — Ali estava eu, fazendo um esforço para fugir daquele olhar perscrutador, inquisitivo e inquietante, que me parecia mais receoso do que curioso. Disparou pelo corredor, não sei se fugindo ou ansioso para completar a sua incumbência e se livrar de mim.
      Enquanto o seguia, lembrava-me do meu amigo José de Arimateia, um amigo adulto para um menino, coisa quase impossível naquele tempo, mas ainda muito difícil hoje. Ele me apareceu pela primeira vez no primeiro dia da semana. Queria entrevistar-se com o meu pai, e me dirigiu um olhar que sorria. Jamais encontrei alguém que olhasse daquela maneira, e aquilo me impressionou tanto, que passei em vão a tentar imitá-lo, até o dia em que fui batizado pelo meu primo Yohanan, o Batista. Daquele dia em diante, após a descida do Espírito Santo em mim, não só o meu sorriso, diziam, mas todos os meus gestos, as minhas palavras, o toque das minhas mãos e até mesmo o meu andar sorriam.
      José era um homem alto, coisa incomum entre nós judeus; seus cabelos e barba negros como a noite, apesar da sua idade não haviam ainda sido tingidos pelo branco dos anos; era tão jovem em aparência como em espírito. Por vezes meu pai reclamava de seu modo de ver a vida, pueril demais para a sua idade. Mas era impossível para qualquer um deixar de gostar dele: simpatizava-se com ele instantaneamente e para sempre.
      Minhas lembranças foram interrompidas pela chegada à cela do superior, exatamente igual à minha: nada nas paredes, a pedra aquecida pelo sol inclemente durante todo o dia produzia um mormaço dentro do aposento, um efeito desagradável de sufocamento comum na nossa terra, mas inexplicável (para mim) onde habitava alguém de hierarquia superior. Pelo chão, apenas a terra, piso que conhecemos bem, privilégio que os pobres têm e do qual os ricos e os romanos foram alijados em favor dos dispendiosos mármores que embelezam, mas tiram o contato com o mundo. Talvez seja por isso que as crianças ricas adoecem com tanta facilidade e frequentemente.
      — Sei o que pensas, meu filho. Este não é um lugar muito confortável para alguém da minha posição, mas os bons exemplos deveriam vir de cima, e aqui eles realmente vêm. A única razão da minha posição de destaque nesta casa é a minha idade.
       Mas vamos falar do motivo de estarmos aqui. Nosso protetor, José de Arimateia, pediu-me que o aceitasse para que estudasse para levar a cabo a tua missão. Neste lugar conhecerá a Doutrina da Verdade, aquela que sobreviveu entre nós, apesar de ter sido desvirtuada pelo nosso povo e pelos gentios. Alguns a esqueceram, outros a mutilaram e emendaram com absurdos, mas aqui, por trás destas paredes sem janelas, ela permanece íntegra como o rio Jordão. Tu serás uma fonte dessa água, a qual verterás com a mesma pureza original. Tu serás a luz do mundo e quem te seguir não morrerá, mas sim ficará vivo pela eternidade ao lado de Deus. Tu, Judas, quando chegar a hora secundará a Jesus para que se cumpram as profecias e ele possa verdadeiramente penetrar no coração dos homens. Jesus, tu serás instruído até que passes dos vinte anos, quando viajarás a um reino distante em direção do nascente, além da Babilônia e da Pérsia, onde os templos de pedra não mais falam e o povo adora o boi. Não te contaminarás com eles, mas sim conhecerás alguém que completará a tua educação. Quando retornares, será outra criatura para a glória do nosso Deus, o único deus verdadeiro, aquele que nos tirou do cativeiro no Egito e nos deu a Terra Prometida. Vá e durmas em paz, que o dia reserva muitas surpresas.
      Acostumado a dormir naquelas condições, pobre que eu era não tive dificuldades na primeira noite, embora minha cela fosse especialmente fria; no deserto a noite é normalmente gelada.
     No meu primeiro dia, tomei contato com as minhas obrigações da vida ascética: manter o mosteiro livre de animais, ler a Torá (que comecei a ler fluentemente sem nunca haver sido iniciado no hebraico), aprender grego, árabe, egípcio e uma língua estranha, complicadíssima, que aparentemente só eu e o irmão Matheus conhecíamos. Eu deveria aprendê-la para a minha futura vida na terra do deus-boi.
      De manhã líamos Platão, a Ilíada e a Odisseia; nenhum dos filósofos gregos me foi estranho, uma vez que se houvesse algo que fosse diferente da Doutrina em suas palavras eu deveria saber para poder refutar. “Conheças as palavras dos outros para não ser combatido através delas.” — dizia o irmão Matheus.
      Aquela língua estranha possuía uma palavra curiosa para definir a Doutrina, embora as duas doutrinas não fossem iguais: Dharma.
        Meus dias corriam relativamente bem, com poucas interferências maliciosas do irmão Zacarias, enciumado devido ao meu tratamento diferenciado. Várias vezes acusou-me de me alimentar fora dos horários, manter pássaros dentro da minha cela, demorar-me no trabalho... todas as acusações devidamente repelidas porque todos me tratavam com um respeito carinhoso, quase reverente. Eu poderia chamá-los mais de pais do que de irmãos. Assim eu conhecia de perto a minha primeira dificuldade, a primeira perseguição, tendo em vista que até então as outras tinham ficado ou à espreita, ou acontecido quando eu ainda não possuía entendimento suficiente.
      Um dia, o irmão Matheus me convocou para conversar em sua cela. Tomamos assento ao chão, sobre a sua cama, eu vexado de estar com os pés sujos, curioso sobre o assunto a ser tratado. As cobertas rescendiam a homem idoso, uma curiosa mistura de suor, terra e mofo.
        Quando ele falou, o medo tomou conta de mim: eu havia sido denunciado pelo irmão Zacarias; o Sinédrio somente não me pôde alcançar porque o pergaminho foi parar nas mãos do meu amigo José, que o comprou a peso de ouro.
       — É possível que ele faça isso de novo, Jesus. Não sei como resolver essa situação. Não posso expulsar um irmão desta casa sem causar pânico. A tua preparação está apenas começando e não posso arriscar o futuro do nosso povo por causa de um ciumento. Ajuda-me a pensar em algo, por favor.
        Aquela solicitação foi estranha, um homem adulto pedindo ajuda a uma criança. Embora eu fosse mais instruído que os garotos da minha idade, ainda carecia de experiência de vida para forjar um plano. Orei em silêncio e pedi ao Pai que me ajudasse a ter uma ideia
que servisse.
        As palavras do irmão Matheus me transmitiam uma sensação de dor e decepção. Não sei por quanto tempo ficamos ali sentados, olhando para um lugar que não estava à nossa frente, quando ele me disse:
         — Vá dormir Senhor Jesus! É tarde e o sono aclarará as nossas mentes. Amanhã teremos uma resposta.