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domingo, 24 de novembro de 2013

Férias Forçadas

     25/05/2012

   Todas as manhãs ele me acordava. O seu canto me conduzia pela mão desde os meus sonhos mais profundos até a fria realidade. Metade dos meus despertares mais felizes foram ao som das maviosas notas que emitia a sua divina siringe. Em contrapartida, os mais terríveis sempre foram também suavizados por ele. Era meu companheiro durante o tempo em que eu, escritor de parcas ideias e criatividade minguada, tentei em vão sobreviver no mercado editorial.
     Apesar dos meus esforços e da sua inspiração, não consegui continuar e precisei mudar de rumo, tal qual uma nau que se dirigia aos arrecifes durante o sono do capitão e desviou quando ele acordou. Decidido a espairecer, parei por dois meses de trabalhar e decidi fazer coisas que não fazia há muito tempo: assistir televisão, passear pela quinta e admirar a riqueza que eu possuía e de que nem me dava conta. Árvores centenárias, algumas em extinção, pássaros multicoloridos e de belos cantos que faziam seus ninhos na minha pequena ilha de paz em meio à confusão de cidade grande.
     Pude pela primeira vez admirar o andar de uma lagarta, o eclodir de uma linda borboleta de uma feia e envernizada crisálida... coisas que eu tinha em meu quintal, tesouros inimagináveis para um ex-piloto de máquina de escrever e atual comandante de uma dupla computador-impressora.
     Sob o pretexto de tornar a minha vida mais fácil, estes dois últimos aceleraram a minha desventura. Sim, agora não havia desculpa de defeitos na máquina, falta de fita... o meu editor se encarregou de me prover de uma dupla reserva que não me permitia argumentar. E agora em vez de interno na masmorra os últimos três anos da minha vida, havia apenas o subir e descer das costas de uma lagarta.
     Um dia, sem perceber o perigo, adotei um gatinho que encontrara na rua. Com todo o carinho cuidei dele na esperança de contar com a sua companhia; ele cresceu e me dedicou a sua típica frieza de gato: jamais vinha quando eu chamava, apenas quando queria, ou seja, quando precisava de algo, carinho, comida ou água.
     Meu amigo pássaro continuava os seus concertos matinais, com a sua melodia triste de costume, uma sinfonia que os grandes compositores clássicos não se atreveriam a tentar fazer igual. Seus trinados e gorjeios faziam parte de uma categoria especial de música: aquela que uma partitura não comportaria, ou pelo menos que a mão que a escreveu era transcendente, imaterial, divina.
     Meu amigo (que o era sem jamais imaginar) continuava a me enlevar todas as manhãs e me fazer esquecer os problemas com a sua trilha sonora de retiro espiritual.
   Mas um dia tudo acaba, e despertei em completo silêncio: meu amigo cantor havia desaparecido sem deixar traços. Em vão procurei por ele, mas era como se jamais houvesse existido. Coincidentemente, o gato em quem não havia sequer posto um nome, tornou-se mais chegado a mim, mudando de comportamento, tornando-se quase um cachorro. Talvez fosse ele o culpado daquele assassínio hediondo, talvez não. Fosse qual fosse o resultado da investigação que eu jamais empreenderia, havia perdido a minha ligação com o divino, a minha última razão para manter a sanidade.
     Mas alguns dias depois comecei a escrever este relato assim, à mão mesmo, quando percebi que mesmo com a motivação triste de um poeta trágico grego, eu havia recomeçado a escrever, e que estas páginas de uma reportagem triste sobre a morte de um artista nato, um cantor como eu jamais havia encontrado entre os humanos era melhor do que tudo que eu escrevera até então.

     Mas nada me afastava a suspeita daquele gato. Se ele pelo menos aprendesse a cantar....

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