25/05/2012
Todas as manhãs ele me acordava. O seu
canto me conduzia pela mão desde os meus sonhos mais profundos até a fria realidade.
Metade dos meus despertares mais felizes foram ao som das maviosas notas que emitia
a sua divina siringe. Em contrapartida, os mais terríveis sempre foram também
suavizados por ele. Era meu companheiro durante o tempo em que eu, escritor de
parcas ideias e criatividade minguada, tentei em vão sobreviver no mercado
editorial.
Apesar dos meus esforços e da sua
inspiração, não consegui continuar e precisei mudar de rumo, tal qual uma nau
que se dirigia aos arrecifes durante o sono do capitão e desviou quando ele acordou.
Decidido a espairecer, parei por dois meses de trabalhar e decidi fazer coisas
que não fazia há muito tempo: assistir televisão, passear pela quinta e admirar
a riqueza que eu possuía e de que nem me dava conta. Árvores centenárias,
algumas em extinção, pássaros multicoloridos e de belos cantos que faziam seus
ninhos na minha pequena ilha de paz em meio à confusão de cidade grande.
Pude pela primeira vez admirar o andar de
uma lagarta, o eclodir de uma linda borboleta de uma feia e envernizada
crisálida... coisas que eu tinha em meu quintal, tesouros inimagináveis para um
ex-piloto de máquina de escrever e atual comandante de uma dupla
computador-impressora.
Sob o pretexto de tornar a minha vida mais
fácil, estes dois últimos aceleraram a minha desventura. Sim, agora não havia
desculpa de defeitos na máquina, falta de fita... o meu editor se encarregou de
me prover de uma dupla reserva que não me permitia argumentar. E agora em vez
de interno na masmorra os últimos três anos da minha vida, havia apenas o subir
e descer das costas de uma lagarta.
Um dia, sem perceber o perigo, adotei um
gatinho que encontrara na rua. Com todo o carinho cuidei dele na esperança de
contar com a sua companhia; ele cresceu e me dedicou a sua típica frieza de
gato: jamais vinha quando eu chamava, apenas quando queria, ou seja, quando
precisava de algo, carinho, comida ou água.
Meu amigo pássaro continuava os seus
concertos matinais, com a sua melodia triste de costume, uma sinfonia que os
grandes compositores clássicos não se atreveriam a tentar fazer igual. Seus trinados
e gorjeios faziam parte de uma categoria especial de música: aquela que uma
partitura não comportaria, ou pelo menos que a mão que a escreveu era
transcendente, imaterial, divina.
Meu amigo (que o era sem jamais imaginar)
continuava a me enlevar todas as manhãs e me fazer esquecer os problemas com a
sua trilha sonora de retiro espiritual.
Mas um dia tudo acaba, e despertei em
completo silêncio: meu amigo cantor havia desaparecido sem deixar traços. Em
vão procurei por ele, mas era como se jamais houvesse existido.
Coincidentemente, o gato em quem não havia sequer posto um nome, tornou-se mais
chegado a mim, mudando de comportamento, tornando-se quase um cachorro. Talvez
fosse ele o culpado daquele assassínio hediondo, talvez não. Fosse qual fosse o
resultado da investigação que eu jamais empreenderia, havia perdido a minha
ligação com o divino, a minha última razão para manter a sanidade.
Mas alguns dias depois comecei a escrever
este relato assim, à mão mesmo, quando percebi que mesmo com a motivação triste de
um poeta trágico grego, eu havia recomeçado a escrever, e que estas páginas de
uma reportagem triste sobre a morte de um artista nato, um cantor como eu
jamais havia encontrado entre os humanos era melhor do que tudo que eu
escrevera até então.
Mas nada me afastava a suspeita daquele
gato. Se ele pelo menos aprendesse a cantar....
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