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sábado, 8 de junho de 2013

Pesquisa

13/04/2012

— Dois, três, um! Iniciar observação de hoje. Os espécimes acabaram de acordar e começaram a se alimentar. Consomem frutas, cereais, legumes e verduras crus ou cozidos. Bebem água. — virou-se Fem para Nod, com expressão de nojo.
—  Consegue imaginar porque fazem isso? — perguntou Nod, curioso.
— Esses organismos primitivos são assim mesmo. Precisam comer e beber para manterem-se vivos. Dizia o meu mestre que nós também já fomos assim.
— E depois, o que acontece com essas coisas que eles ingerem?
— Transformam-se em uma massa e em um líquido malcheirosos.
— Que nojo! Você tem muito sangue frio! Onde está o nosso ideal de asseio e pureza?
— É a Ciência, meu amigo! Veja isso: eles estão usando as patas dianteiras para comer.
— É nojento. Veja: enfiam nas aberturas no rosto e trituram antes de ingerir. Nojento. Descobriu mais alguma coisa?
— Consegui descobrir como se reproduzem. Precisam sempre de dois indivíduos: um produz o filhote enquanto o outro se encarrega de alimentar e proteger a todos.
— Curioso, não? Quanto tempo demora em produzir um filhote?
— Bem, para fazer é pouquíssimo tempo. Eu diria que no máximo um karad1; o filhote fica dentro do ventre de um indivíduo por uns dez cromer2. Mas o pior é que ele não nasce independente; se não for alimentado, aquecido e defendido, invariavelmente morre.
— Será que poderíamos chama-los de raça civilizada?
— Longe disso, Nod! — disse ele, rindo-se da ignorância do outro. —Eles são brutais às vezes até mesmo com os próprios membros do seu grupo, só pensam em si mesmos, são exatamente o oposto de nós. É de se admirar que tenham sobrevivido tanto tempo. O seu planeta os produziu há alguns far3 e eles se mostraram muito ingratos com ele. Destroem tudo, sujam, corrompem e quando não podem destruir algo, voltam-se uns contra os outros para matá-los ou em último caso até a si mesmos. Matam-se rapidamente ou ingerindo substâncias que o farão lentamente.
Quando parecem imbuídos de altruísmo, o fazem em busca de prazer ou de recompensas.
Eles acreditam que um ser superior que os criou vai recompensá-los após a morte se eles se mostrarem bondosos com os outros; por isso, mesmo que sem sinceridade, promovem o bem-estar momentâneo dos semelhantes e bajulam de todas as maneiras possíveis o ser superior. Dedicam-lhe músicas, ficam sem se alimentar, dormir, fazer filhotes, tudo no intuito de fazê-lo acreditar que são merecedores das suas benesses. E o que é pior: eles realmente acreditam que são bons. Patético. Que ser superior premiaria o orgulho, a falsidade e a bajulação?
— Como chegaram a eles?
— Nós os monitoramos à distância desde que surgiram, tentamos injetar-lhes cultura, saber e moral, mas eles insistem em não absorver. O saber somente lhes interessa um pouco se lhes permitir criar meios de se destruírem ou dominarem outrem. Só interferimos porque quase se extinguiram.
— Doenças?
— Guerra. Após uma delas, a mais catastrófica de todas; os recolhemos quando de uma visita ao seu planeta, e esses foram os únicos sobreviventes. Quase todos morreram devido aos efeitos da radioatividade. Mesmo estes estão contaminados.
— É mesmo. Não vale a pena perder tempo estudando-os. São animais nocivos. As criaturas mais simples do nosso planeta são mais úteis, inclusive a si mesmos.
— A propósito, por que veio me visitar? Está sempre tão atarefado...
— Ert pediu que o convidasse para dormir lá em casa hoje. Além disso, o comandante do projeto mandou uma ordem para que você descarte os espécimes desta leva para abrir espaço para uma nova. Deve chegar hoje mesmo.
— Mas pensando bem são os últimos da espécie! Não podemos fazer isso!
— Diante do que descobriu sobre eles, não é bom para o Universo que esta espécie sobreviva.
— Mas...
— Fem, foi uma ordem superior. Você precisa descartar esses animais, esses... Como se chamam?
— Homens. São homens. Está bem; acho que o Universo não sentirá falta deles. Ordens são ordens.
A sua mão pairou sobre uma coluna de luz que saía de um painel à sua esquerda; lentamente, um gás violeta foi preenchendo a redoma, sufocando cerca de cem espécimes.
Fem e Nod retiraram-se abraçados e foram embora para uma noite de diversão.


NOTAS:
1 karad: equivalente a nove meses.
2 cromer: meses.
3 far: milhões de anos.


Um comentário:

  1. Criativo esse conto! É uma coisa incomum, ver uma história em que alienígenas analisam humanos segundo seu ponto de vista, e os consideram seres medíocres, de somenos importância.

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