17/09/78
O
navio atracou, e a visão da multidão no cais baixíssimo parecia a de um
formigueiro. Reuni minhas poucas coisas, desci e fui em busca da confirmação da
minha informação.
O
cais estava tumultuado, pessoas resvalavam umas nas outras e as cargas que
levavam caíam ao chão.
Enveredei
por uma viela malcheirosa, e aqui e ali era abordado por prostitutas seminuas e
mascates oferecendo bugigangas.
Mais
à frente, percebi que a fumaça reinante não era apenas neblina. Vapores de ópio
penetraram pelas minhas narinas, tirando-me da realidade. Tonto, nem percebi a
chuva torrencial que se abatia sobre toda a cidade.
As
gotas de chuva só serviram para turvar ainda mais a minha visão. Senti que
havia tropeçado e caído. Logo senti meus olhos amornarem-se, banhados em meu
próprio sangue. Vi então a alguns metros de onde estava, uma pessoa enrolada em
alguns sacos de aniagem. Estranhamente, estava sentada como um mexicano, com a
cabeça coberta por um chapéu de palha de arroz.
Sua
voz me causou tanto espanto quanto a sua aparência:
—
Machucou-se, amigo?
—
Se meu sangue responde à sua pergunta... — respondi.
—
Procura por algo?
— Sim. Recebi informações de que meu irmão havia se estabelecido por aqui, após
desertar da marinha mercante de Sua Majestade.
—
Sei. — exclamou ele, mostrando interesse.
De
repente, senti algo familiar naquela voz embargada, algo que sentia nos meus
tempos de criança. Levantei-me surpreendentemente rápido para quem estava
dopado pelos vapores e andei em sua direção. Ele silenciou, mas não se moveu.
Cheguei a suspeitar de que fosse um boneco e alguém estivesse brincando de
ventríloquo comigo. Puxei o seu chapéu e descobri que o meu interlocutor não
passava de um saco de batatas vestido como um ser humano.
Levantei
a cabeça e olhei em torno quando vi, escondido atrás do armazém, próximo ao
anúncio de uma casa de gueixas, aqueles mesmos olhos brilhantes, vivos, embora
não estivessem encravados no mesmo rosto juvenil de outrora.
A
expressão selvagem havia desaparecido, substituída pelas rugas que denunciavam o
passar dos anos.
Se
seus olhos são jovens, seu espírito ainda tem a mesma alegria de viver. —
pensei — Então, ele ainda está vivo. Seu rosto estava marcado por várias
cicatrizes e seu corpo em decrepitude mas, sem dúvida, eu reencontrei meu
irmão.
Interessante esse conto. Curioso que o ambiente da história me lembra mais a China do fim do século XIX/início séc. XX do que o México, na mesma época.
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