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sábado, 8 de junho de 2013

USS TRITON

17/09/78

O navio atracou, e a visão da multidão no cais baixíssimo parecia a de um formigueiro. Reuni minhas poucas coisas, desci e fui em busca da confirmação da minha informação.
O cais estava tumultuado, pessoas resvalavam umas nas outras e as cargas que levavam caíam ao chão.
Enveredei por uma viela malcheirosa, e aqui e ali era abordado por prostitutas seminuas e mascates oferecendo bugigangas.
Mais à frente, percebi que a fumaça reinante não era apenas neblina. Vapores de ópio penetraram pelas minhas narinas, tirando-me da realidade. Tonto, nem percebi a chuva torrencial que se abatia sobre toda a cidade.
As gotas de chuva só serviram para turvar ainda mais a minha visão. Senti que havia tropeçado e caído. Logo senti meus olhos amornarem-se, banhados em meu próprio sangue. Vi então a alguns metros de onde estava, uma pessoa enrolada em alguns sacos de aniagem. Estranhamente, estava sentada como um mexicano, com a cabeça coberta por um chapéu de palha de arroz.
Sua voz me causou tanto espanto quanto a sua aparência:
— Machucou-se, amigo?
— Se meu sangue responde à sua pergunta... — respondi.
— Procura por algo?
— Sim. Recebi informações de que meu irmão havia se estabelecido por aqui, após desertar da marinha mercante de Sua Majestade.
— Sei. — exclamou ele, mostrando interesse.
De repente, senti algo familiar naquela voz embargada, algo que sentia nos meus tempos de criança. Levantei-me surpreendentemente rápido para quem estava dopado pelos vapores e andei em sua direção. Ele silenciou, mas não se moveu. Cheguei a suspeitar de que fosse um boneco e alguém estivesse brincando de ventríloquo comigo. Puxei o seu chapéu e descobri que o meu interlocutor não passava de um saco de batatas vestido como um ser humano.
Levantei a cabeça e olhei em torno quando vi, escondido atrás do armazém, próximo ao anúncio de uma casa de gueixas, aqueles mesmos olhos brilhantes, vivos, embora não estivessem encravados no mesmo rosto juvenil de outrora.
A expressão selvagem havia desaparecido, substituída pelas rugas que denunciavam o passar dos anos.

Se seus olhos são jovens, seu espírito ainda tem a mesma alegria de viver. — pensei — Então, ele ainda está vivo. Seu rosto estava marcado por várias cicatrizes e seu corpo em decrepitude mas, sem dúvida, eu reencontrei meu irmão.

Um comentário:

  1. Interessante esse conto. Curioso que o ambiente da história me lembra mais a China do fim do século XIX/início séc. XX do que o México, na mesma época.

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