Saí
de casa como costumava fazer há vários anos, religiosamente, no dia dos
namorados. Sozinho como quase sempre, cheguei ao ponto de ônibus. Consegui com
um pouco de esforço pegar o carro certo para o shopping e me sentei, relaxando
tanto quanto possível.
Chegando
lá pude admirar a quantidade de pessoas que chegavam, enchendo a escada de
acesso. Era notável que a proporção mulher/homem era amplamente favorável a
mim, embora preferisse não pensar nisso. Nada havia ali que me fizesse crer que
conseguiria uma namorada, justamente no dia em que já deveria ter uma. Mas esse
não era o meu objetivo, uma vez que saíra de um relacionamento sazonal, que me
levava a ter alguém apenas uma vez por ano, sempre no aniversário dela.
Mas
o dia dos namorados sempre foi quase exclusivamente meu, e aquele parecia um de
tantos outros. Acostumado, repeti mecanicamente o ritual de comprar o ingresso,
comprar pipoca e entrar na fila.
Foi
quando olhei em torno e avistei outra criatura aparentemente na mesma situação:
megapacote de pipoca e refrigerante de meio litro, sozinha. Como não sou
versado nas artes da conquista, procurei encarar a minha pequena curiosidade
como um interesse antropológico, e continuei a observar sem, contudo, me deixar
descobrir.
As
filas foram liberadas para entrar e caminhei vagarosamente, contrariando a
minha natureza, como um galeão espanhol sobre as águas de um mar calmo. É certo
que normalmente eu andaria como um carro de fórmula 1, mas a minha observada
poderia fugir do meu alcance visual.
De
qualquer maneira, eu a perderia de vista assim que cruzássemos os portais dos
nossas salas de projeção,
Para
a minha surpresa, cruzamos o mesmo portal: para um filme de ficção científica.
Que tipo de mulher atual vê esse tipo de filmes? Se fosse um vindo de um texto
de Aldous Huxley ou de Isaac Asimov eu até entenderia, mas a história era de um
autor iniciante, talvez mais um daqueles que conseguem apenas um sucesso e
desaparecem. Ela era incomum, e isso era notório, aguçando a minha curiosidade.
Devidamente
acomodado, pude vê-la se aproximando e sentando ao meu lado: era como se no
meio de uma enorme planície, alguém resolvesse soltar uma bomba justamente em
minha cabeça. Umas três fileiras atrás e umas três à frente estavam vazias, e a
nossa agora tinha dois ocupantes lado a lado.
O
filme começou justamente quando me apercebi do inusitado da situação; vinte
minutos após, as pipocas devoradas e os refrigerantes estrategicamente bebidos
pela metade, começamos uma conversa sobre o filme, primeiro tentando adivinhar
as falas, depois as cenas, e logo os assuntos eram tão diversificados quanto as
teorias da conspiração, religiões a astronomia.
O
filme se desenrolava, podendo contar menos dois expectadores. Levantamo-nos,
saindo em silêncio para logo continuarmos a conversa lá fora. Decidimos jantar
juntos, e partimos em uma verdadeira via
crucis para encontrar uma vaga num restaurante, depois num rodízio de
pizzas e massas, e por fim conseguimos numa lanchonete.
Ficamos
algum tempo por lá, remexendo no copo com o canudinho, após terminarmos o
lanche; obviamente acreditei que era solteira, ao que ela respondeu sim com espanto. Não me era difícil
acreditar, pois seus gostos eram o oposto do que a quase totalidade dos homens
esperava encontrar numa mulher, e isso não significava que era ruim.
Se
ela esperava encontrar um homem para ser seu namorado e me escolheu a ponto de
se sentar ao meu lado, foi precisa: seu bombardeio cirúrgico surtira efeito. Capitulei,
rendi-me aos seus encantos a princípio estudados, mas por fim eram mais
naturais que um piscar de olhos.
É
claro que não seria logo a minha namorada, mas uma paquera estendida à
exaustão. Somente uma pergunta permanecia como um milhão de tambores japonese
em minha mente: “Porque eu?”.
Fomos
a Copacabana (atravessamos a ponte) para ver o mar e continuar a nossa
conversa. Comecei a pensar que gostaria que ela fosse a minha namorada e
estranhei que uma moradora de Copacabana resolvesse ir a São Gonçalo para ir ao
cinema. Meu sexto sentido avisava como um enorme sino dobrando que algo estava
errado e muito errado naquela situação. Mas me deixei levar. Era linda,
inteligente, crítica e profundamente observadora. Escrevia e me garantiu que
lera os mesmos livros que eu. Apesar de morar ali perto, convidou-me para tomar
o café-da-manhã com ela. Aquele convite abalou as minhas últimas linhas de
defesa e aceitei. Uma noite e madrugada incríveis então vieram para nós, e
acordei ao meio-dia.
Olhei
em torno e não a vi. Procurei por todo o lado por um sinal de sua presença, uma
reles meia calça esquecida, um brinco, um cordão... Em meio ao meu trabalho de
perito criminal amador, procurei até mesmo um fio de cabelo, um parco sinal que
denunciasse a sua presença. Assim eu não me julgaria um louco que teve o
delírio de que uma mulher quase perfeita havia saído com ele. Nada. O ambiente
parecia tão asséptico quanto um centro cirúrgico: nada havia, nem mesmo uma
pista, até mesmo as cobertas estavam dobradas à moda das camareiras de hotel.
Parti
então para o banheiro: em cima da pia, um envelope com letras bem escritas
dizia: “Para o meu cavalheiro.” Então o abri e li: “Obrigado por me fazer
acreditar por um momento que poderíamos dar certo; confesso que me senti
tentada a levar a minha pequena farsa adiante, nos casarmos e fazer com você
todos os finais de semana, pro resto de nossas vidas, o que faço com todos os
todos os homens nos cinemas. Um pequeno investimento em entrada e pipoca com
refrigerante para uma noite mais proveitosa. Mas você não merece isso. É
inocente o suficiente para cair numa armadilha que poderia ser um boa-noite
cinderela. Você caiu no conto da namorada perfeita. Adeus. P.S.: Não adianta me
procurar, pois não moro em Copacabana.”
Sentei-me
na cama e comecei a rir como jamais fui capaz de fazê-lo em minha vida. Naquele
momento lembrei-me do porquê de ainda continuar solteiro após os quarenta anos.
Ainda bem que ele não acordou sem os rins numa banheira de gelo, né... =P
ResponderExcluirBacana. Abração, amigo!
Felipe Stevans