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domingo, 15 de julho de 2012

Mudanças



O café caía na xícara enquanto Miles sonhava: um novo emprego, uma nova vida se descortinava à sua frente. Engoliu o café de um único gole, pegou o quepe preto e a lanterna e antes de sair do alojamento, deu uma boa olhada na foto da mulher, Anne, que estava muito feliz de ele ter conseguido um emprego após quase um ano procurando. Desceu os poucos degraus que o separavam do pátio e conferiu a cerca eletrificada em busca de alguma alteração. Nada.
Começou a sua ronda noturna em busca de algo estranho sem, contudo, encontrar nada mais do um morcego voando entre os prédios ou um gato vadio tentando conseguir um pouco de carne de graça. Miles admirava-se com os altos e espaçosos galpões e com a estrutura da indústria. Estava também muito feliz e enviou fotos da empresa para os amigos por e-mail para comemorar.
Passando pelo frigorífico, ouviu um som comum em instalações como aquelas: o som das facas roçando os ossos era mais do que normal, mas durante o dia. Eram 22:47 e não havia empregados trabalhando, ou pelo menos não deveria haver.
Foi andando pé ante pé para garantir que quem estivesse lá não o escutasse. O seu palpite era correto: o som vinha do galpão de desossa. Aparentemente algum funcionário resolvera fazer um serão não autorizado e era o seu dever e função impedir.
Havia alcançado o portão de entrada e o som se tornara mais forte e mais frenético, como se aquela pessoa se houvesse enfastiado e movesse a faca a esmo, sem preocupação com o resultado. Poderia ser alguém querendo sabotar o serviço inacabado de alguém.
Miles teve então uma ideia: deveria fotografar a cena como prova num eventual processo de demissão. Então foi pela lateral do prédio, alcançando a entrado do duto de ventilação e se esgueirou por ele até que tivesse uma visão exata dos acontecimentos.
 Teve ânsia de vômito ao ver o que se desenrolava no recinto: de fato era um funcionário, o encarregado Sonny Bertoli desossava uma carcaça...humana enquanto devorava, crus mesmo, os pedaços retirados.
O corpo estava pendurado de cabeça para baixo pelos pés e a pele fora descolada do tronco como um pulôver que pendurado à altura do peito, escondia o rosto.
Tinha a impressão de que era o corpo de uma mulher, que obviamente não seria uma funcionária, uma vez que lá não trabalhavam mulheres. Ele deveria ter capturado aquela vítima fora dali, talvez uma passante, quem sabe uma mendiga.
Miles pegou o celular para fotografar a cena, mas esqueceu do flash. Quando viu o flash, o encarregado olhou imediatamente na direção da grade. Miles, descoberto, passou a fugir para salvar a própria vida. Ficou um segundo preso por uma farpa do revestimento interno do duto, o suficiente para que Sonny se aproximasse bastante dele. Correndo como jamais fizera antes, conseguiu abrir novamente vantagem, subindo pela escada da grua de desembarque, entrando na cabine e trancando a porta. Sonny, o encarregado, estava disposto a dar a Miles o mesmo destino da infortunada mulher. Mas Miles não venderia tão barato a sua vida; percebeu que o gancho da grua estava bem encostado em um tonel empilhado atrás do assassino. Seria a sua última cartada, teria que funcionar.
Apertou a alavanca de avanço e o gancho empurrou o galão, que caiu em cheio sobre Sonny. Morte instantânea. O portão se abriu e o patrão, Walt Cherkowsky, entrou e correu na direção do corpo. Quando Miles chegou ele disse:
— Quem fez isso com ele? Foi você?
— Fui eu, senhor Cherkowsky. Eu o vi devorando o corpo de uma mulher na sala de desossa então ele correu atrás de mim para me matar. Consegui derrubar o tonel em cima dele com a grua.
— Seu celular está tocando. — disse o patrão.
Miles ficou lívido quando leu a mensagem: “Miles, Anne está com você? Ela saiu de casa dizendo que iria lhe fazer uma surpresa levando um bolo e ainda não voltou. Sabe se ela vai demorar? Sua sogra”.
— Ela não teve tempo nem de gritar. Nós a trouxemos sem que você percebesse pela entrada secreta.
O golpe da lâmina foi certeiro no pescoço de Miles. Caído no chão com o telefone ainda na mão, o sangue jorrou da jugular até que a sua vida se esvaísse com ele.

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