O
café caía na xícara enquanto Miles sonhava: um novo emprego, uma nova vida se
descortinava à sua frente. Engoliu o café de um único gole, pegou o quepe preto
e a lanterna e antes de sair do alojamento, deu uma boa olhada na foto da
mulher, Anne, que estava muito feliz de ele ter conseguido um emprego após
quase um ano procurando. Desceu os poucos degraus que o separavam do pátio e
conferiu a cerca eletrificada em busca de alguma alteração. Nada.
Começou
a sua ronda noturna em busca de algo estranho sem, contudo, encontrar nada mais
do um morcego voando entre os prédios ou um gato vadio tentando conseguir um
pouco de carne de graça. Miles admirava-se com os altos e espaçosos galpões e
com a estrutura da indústria. Estava também muito feliz e enviou fotos da
empresa para os amigos por e-mail para comemorar.
Passando
pelo frigorífico, ouviu um som comum em instalações como aquelas: o som das
facas roçando os ossos era mais do que normal, mas durante o dia. Eram 22:47 e
não havia empregados trabalhando, ou pelo menos não deveria haver.
Foi
andando pé ante pé para garantir que quem estivesse lá não o escutasse. O seu
palpite era correto: o som vinha do galpão de desossa. Aparentemente algum
funcionário resolvera fazer um serão não autorizado e era o seu dever e função
impedir.
Havia
alcançado o portão de entrada e o som se tornara mais forte e mais frenético,
como se aquela pessoa se houvesse enfastiado e movesse a faca a esmo, sem
preocupação com o resultado. Poderia ser alguém querendo sabotar o serviço
inacabado de alguém.
Miles
teve então uma ideia: deveria fotografar a cena como prova num eventual
processo de demissão. Então foi pela lateral do prédio, alcançando a entrado do
duto de ventilação e se esgueirou por ele até que tivesse uma visão exata dos
acontecimentos.
Teve ânsia de vômito ao ver o que se
desenrolava no recinto: de fato era um funcionário, o encarregado Sonny Bertoli
desossava uma carcaça...humana enquanto devorava, crus mesmo, os pedaços
retirados.
O
corpo estava pendurado de cabeça para baixo pelos pés e a pele fora descolada
do tronco como um pulôver que pendurado à altura do peito, escondia o rosto.
Tinha
a impressão de que era o corpo de uma mulher, que obviamente não seria uma
funcionária, uma vez que lá não trabalhavam mulheres. Ele deveria ter capturado
aquela vítima fora dali, talvez uma passante, quem sabe uma mendiga.
Miles
pegou o celular para fotografar a cena, mas esqueceu do flash. Quando viu o
flash, o encarregado olhou imediatamente na direção da grade. Miles, descoberto,
passou a fugir para salvar a própria vida. Ficou um segundo preso por uma farpa
do revestimento interno do duto, o suficiente para que Sonny se aproximasse
bastante dele. Correndo como jamais fizera antes, conseguiu abrir novamente
vantagem, subindo pela escada da grua de desembarque, entrando na cabine e
trancando a porta. Sonny, o encarregado, estava disposto a dar a Miles o mesmo
destino da infortunada mulher. Mas Miles não venderia tão barato a sua vida;
percebeu que o gancho da grua estava bem encostado em um tonel empilhado atrás do
assassino. Seria a sua última cartada, teria que funcionar.
Apertou
a alavanca de avanço e o gancho empurrou o galão, que caiu em cheio sobre
Sonny. Morte instantânea. O portão se abriu e o patrão, Walt Cherkowsky, entrou
e correu na direção do corpo. Quando Miles chegou ele disse:
—
Quem fez isso com ele? Foi você?
—
Fui eu, senhor Cherkowsky. Eu o vi devorando o corpo de uma mulher na sala de desossa
então ele correu atrás de mim para me matar. Consegui derrubar o tonel em cima
dele com a grua.
—
Seu celular está tocando. — disse o patrão.
Miles
ficou lívido quando leu a mensagem: “Miles, Anne está com você? Ela saiu de
casa dizendo que iria lhe fazer uma surpresa levando um bolo e ainda não
voltou. Sabe se ela vai demorar? Sua sogra”.
—
Ela não teve tempo nem de gritar. Nós a trouxemos sem que você percebesse pela
entrada secreta.
O
golpe da lâmina foi certeiro no pescoço de Miles. Caído no chão com o telefone
ainda na mão, o sangue jorrou da jugular até que a sua vida se esvaísse com
ele.
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