Olhou
pela fresta da janela, pesquisando lentamente o mundo lá fora, procurando algum
sinal da tempestade da noite anterior. Não havia sido coisa muito importante,
apenas uma forte chuva, entrecortada de raios e trovões, nada que causasse
maior dano que algumas horas de incômodo para os ouvidos.
Lentamente
abriu a janela, descerrando medos e precauções, preocupações e presunções de um
dia normal. Respirou voluptuosamente o ar da manhã e olhou o céu azul-anil,
como um cego que vê o mundo pela primeira vez na vida. Saboreou o vento no
rosto, deixando-se ficar na janela, contemplando a vista.
Uma
pontada no peito avisou que sua companheira fiel, a saudade, também havia
acordado de um sono profundo, nada agitado, permeado de sonhos do passado, nada
semelhantes a pesadelos.
Então
a saudade começou o seu expediente, lembrando-lhe dos tempos felizes em que
vivia na cidade, quando tudo estava ao alcance dos dedos: um número de telefone
para o almoço entregue em casa, as compras pela internet chegadas pelas mãos
de um sorridente carteiro... Até mesmo suas necessidades sexuais poderiam ser
satisfeitas via linha telefônica.
Mas
tudo era tão impessoal, tão frio e
insensível, não exigindo mais do que sete toques dos dedos, que acabou resolvendo morar no campo. A ideia foi amadurecida durante anos, até que o atravessar de
uma rua, uma freada brusca e um grito de dor deram a partida para uma mudança
de ares. Um caminhão cheio de móveis, fogão, televisão... Não, a televisão não;
ela ficou bem na sala da vizinha, mulher prestimosa, mistura de amiga, mãe e em
algum deslize do destino, um corpo amigo que aliviou a solidão e os distanciou
logo depois.
O
filho da vizinha adorou o presente e foi com olhos marejados de lágrimas que
aceitou o presente dando-lhe um dos abraços mais sinceros de sua existência.
Vida que segue, o
caminhão começou a subida ao futuro. Morar no campo é uma coisa, mas tornar-se
um eremita é outra completamente diferente.
Mas
o fato é que hoje, longe de tudo, sentia-se mais completo, dias passados em
frente ao computador escrevendo o seu livro e construindo em letras uma
felicidade que jamais conheceu: criando, mudando, tornando prósperas ou
arruinando um sem-número de vidas que de real têm apenas o sentimentos
despertados na alma dos leitores.
Ao
lado da cama, barbitúricos e vomitórios para o caso de mudar de ideia quanto ao
suicídio. Não, não havia nada que o empurrasse nesta direção, pelo menos por
enquanto. Alimentava o corpo com os produtos de sua pequena fazenda encravada
nas montanhas e o espírito com a lembrança das lágrimas de menino. Elas o
lembravam de que não estavam presentes somente na tristeza. Tanto isso era
verdade que se tornaram o nome do seu livro, que agora estava no último
capítulo.
Tinha
saudade do tempo em que tudo o que queria era ser feliz, não dependendo de ter
um emprego, das facilidades da vida ou amizades presentes. Mas tudo havia se perdido
quando o monitor cardíaco bipou pela última vez: tornou-se um apito infinito,
pífia despedida de cinco anos de harmônica convivência, de equilíbrio nunca
dantes conquistado, personificado em uma mulher fantástica, nascida da junção
dos quatro elementos, já que não se sabia quem eram os seus pais.
Pensando
bem, ela era a junção destes elementos: seu amor era como a água, tranquilo a
maior parte do tempo, agitado à tempestade pelo vento do ciúme, configurando
uma tempestade violenta. O fogo dos seus beijos queimava-o constantemente e seu
coração era terra fértil para um amor que se reinventava a cada minuto.
Os ecos do seu riso
ainda estavam em sua cabeça, ricocheteando de neurônio em neurônio como a
fazer uma faxina silenciosa em todos os escaninhos do cérebro.
Mas
não havia mais motivo para pressa em terminar o livro que se transformara em
livro de história, uma vez que descrevia um passado com gosto de distância, sem
o mínimo contato com a realidade; nada ficou daquele tempo a que pudesse se
agarrar: o computador permanecia ligado dia após dia, a página aberta e o
cursor piscando sobre uma linha que não recebia palavras havia três meses.
Agora
suas mãos se ocupavam de afagar o carneirinho fofinho e dócil, única sensação
que as agradava. De alguma forma ele lembrava Cecília, da maciez à docilidade,
um companheirismo canino desviado de espécie.
Surpreendentemente,
as mãos agitavam-se agora, reagindo às palavras que pululavam na cabeça. Deixou
o animalzinho que invariavelmente o seguiu à casa. Sentou-se ao computador e
começou a digitar, absorvido em descarregar na tela a torrente de palavras que
lhe inundava e transbordavam pelos dedos.
Olhou para os remédios
ao lado da cama, salvação e perdição lado a lado, a carta do editor exigindo a
entrega do livro e pensou... E pela primeira vez em um ano usou a voz:
—
Fiquem aí que tenho um livro a terminar.
E
enveredou pela obra, sem fome, sem sono, sem cansaço e agora com uma tremenda
vontade de viver... Até a próxima tempestade.
10/10/2009
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