Pela
vigia da nave Pártenis divisou o seu
planeta natal. Em todo o Universo, os seres têm a mesma reação ao chegar a
casa: olhar pela vigia para ver a aproximação. Não o incomodava o fato de ser o
último gopeiano vivo, o que causava certa confusão quando visitava algum
planeta estranho e devia falar de sua planetalidade:
—
Gopeiano. — respondia com orgulho, sempre que inquirido, a um oficial geralmente
desconfiado que retrucava:
— É
fato sabido que Gopéia é desabitada.
Então
ele respondia:
— Tanto
ela é habitada que estou aqui. — mais alguns momentos, uma consulta ao banco de
dados e um pedido de desculpas e conseguia passar.
Após
algumas situações como essa, ele passou a ser conhecido por ter se tornado notícia
em todos os cantos da galáxia. Em alguns locais não necessitava mais declarar a
planetalidade, pois automaticamente o campo destinado a esta informação era
preenchido.
Despertar
a curiosidade alheia já havia se tornado maçante há algum tempo, pois as
pessoas insistiam em lhe perscrutar o corpo em busca de alguma barbatana,
cauda, olhos extras, chifres ou que tais. No início divertia-se com isto, mas
agora era diferente. Estava cansado de ser analisado e de escutar sussurros
dizendo:
— Olhe
o gopeiano!.
Agora
retornando a casa, desta vez a trabalho, um trabalho que o angustiava por dele
depender a sobrevivência de todas as formas de vida daquele paraíso; ele se
sentia impotente para encarar as forças ocultas que agiam em prol da
colonização e exploração mineradora em Gopéia. Dói-lhe pensar que formas de
vida tão sutis como os pelagins* podem
se tornar extintos. Eles não resistiriam à poluição dos rios e mares, inerente
às atividades mineradoras. Sentia-se espoliado como um Adão moderno que vê a
possibilidade de que as criaturas que ele próprio nomeou sejam eliminadas; sim,
se os animais de Gopéia possuíam nomes
era porque ele os havia dado.
No
seu planeta havia também árvores maquin,
que forneciam madeira para os mais variados usos de acordo com a idade de
corte, que variava de dois meses a um ano. Esta espantosa capacidade de crescer
tão rápido (um ano gopeiano equivalia a seis meses da Terra) era maravilhosa,
só superada pela sua forma de plantio, (qualquer pedaço da madeira, quando
enterrado brotava) fazia destas árvores um tesouro da botânica.
Mas
o que Pártenis mais apreciava eram os dodrons:
simpáticos animaizinhos de olhos grandes e ternos, peludos, com estruturas
semelhantes a asas de pele nas costas que eram a sua fonte de alimentação, pois
bastava abri-las para que a luz de Mudrazin,
o sol do sistema, lhes fornecesse a energia necessária.
Particularmente
uma família de didrons se chegara a ele, constituindo-se na sua família: Bari,
o macho, Pakti, a fêmea, Kacha, a filhote fêmea, e Porums, o filhote macho. Já
podia sentir a carícia daquelas saltitantes bolinhas de pelos envolvendo-o numa
festa movida a saudades, quando agopeiasse.
Da
vigia podia ver o campo de pouso, a casa, o laboratório, simples cúpulas de
metal aliriano, tão transparente quanto brilhante. Este era o metal mais forte
da galáxia: em um meio com a presença do oxigênio era facilmente fusível a 100º
C, mas no vácuo não era fusível, sendo utilizado como revestimento de
cosmonaves. Era resistente ao impacto de meteoritos e de lixo espacial. Era uma
pena que Alíria não mais existisse, uma casca totalmente perfurada que se
precipitou em direção a Orianes, o seu sol, em um dos muitos cataclismos que
foram causados pela mineração desordenada. Num Universo que costumava ser tão
organizado e harmônico, a presença humana estava se tornando indesejável e
predatória, corroendo e derrocando sistemas inteiros. Desequilíbrio: esta era a
palavra frequentemente usada para explicar o ocaso de vários mundos e sóis em
que a humanidade conseguiu pôr a s suas garras fétidas e peçonhentas. Espoliar era
a ideia que norteava a atividade desta
espécie no Universo. Somente a Via Láctea ainda não conhecia essa destruição
sistemática, embora a semente já esteja plantada há alguns milhares de anos
terrestres. Mas até quando? Gopéia também seria contaminada com esse verme
planetário, esse parasita mortal que aniquila a tudo sem a mínima cerimônia?
Pelagins* peixes gelatinosos que percebem as boas emoções pelo
calor desprendido quando se está na água; sentindo a alteração, se aproximam e
aderem à pele da pessoa ou animal, desfrutando do calor desprendido, para se
separarem tão logo a emoção cesse. Neste momento emitem um delicioso som
audível até mesmo fora da água.
Muito interessante esse texto, tanto pela descrição imaginativa tanto dos planetas, quanto dos seres e, ainda, do estado de espírito do protagonista.
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