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domingo, 15 de julho de 2012

Gopéia



Pela vigia  da nave Pártenis divisou o seu planeta natal. Em todo o Universo, os seres têm a mesma reação ao chegar a casa: olhar pela vigia para ver a aproximação. Não o incomodava o fato de ser o último gopeiano vivo, o que causava certa confusão quando visitava algum planeta estranho e devia falar de sua planetalidade:
— Gopeiano. — respondia com orgulho, sempre que inquirido, a um oficial geralmente desconfiado que retrucava:
— É fato sabido que Gopéia é desabitada.
Então ele respondia:
— Tanto ela é habitada que estou aqui. — mais alguns momentos, uma consulta ao banco de dados e um pedido de desculpas e conseguia passar.
Após algumas situações como essa, ele passou a ser conhecido por ter se tornado notícia em todos os cantos da galáxia. Em alguns locais não necessitava mais declarar a planetalidade, pois automaticamente o campo destinado a esta informação era preenchido.
Despertar a curiosidade alheia já havia se tornado maçante há algum tempo, pois as pessoas insistiam em lhe perscrutar o corpo em busca de alguma barbatana, cauda, olhos extras, chifres ou que tais. No início divertia-se com isto, mas agora era diferente. Estava cansado de ser analisado e de escutar sussurros dizendo:
— Olhe o gopeiano!.
Agora retornando a casa, desta vez a trabalho, um trabalho que o angustiava por dele depender a sobrevivência de todas as formas de vida daquele paraíso; ele se sentia impotente para encarar as forças ocultas que agiam em prol da colonização e exploração mineradora em Gopéia. Dói-lhe pensar que formas de vida tão sutis como os pelagins* podem se tornar extintos. Eles não resistiriam à poluição dos rios e mares, inerente às atividades mineradoras. Sentia-se espoliado como um Adão moderno que vê a possibilidade de que as criaturas que ele próprio nomeou sejam eliminadas; sim, se os animais de Gopéia  possuíam nomes era porque ele os havia dado.
No seu planeta havia também árvores maquin, que forneciam madeira para os mais variados usos de acordo com a idade de corte, que variava de dois meses a um ano. Esta espantosa capacidade de crescer tão rápido (um ano gopeiano equivalia a seis meses da Terra) era maravilhosa, só superada pela sua forma de plantio, (qualquer pedaço da madeira, quando enterrado brotava) fazia destas árvores um tesouro da botânica.
Mas o que Pártenis mais apreciava eram os dodrons: simpáticos animaizinhos de olhos grandes e ternos, peludos, com estruturas semelhantes a asas de pele nas costas que eram a sua fonte de alimentação, pois bastava abri-las para que a luz de Mudrazin, o sol do sistema, lhes fornecesse a energia necessária.
Particularmente uma família de didrons se chegara a ele, constituindo-se na sua família: Bari, o macho, Pakti, a fêmea, Kacha, a filhote fêmea, e Porums, o filhote macho. Já podia sentir a carícia daquelas saltitantes bolinhas de pelos envolvendo-o numa festa movida a saudades, quando agopeiasse.
Da vigia podia ver o campo de pouso, a casa, o laboratório, simples cúpulas de metal aliriano, tão transparente quanto brilhante. Este era o metal mais forte da galáxia: em um meio com a presença do oxigênio era facilmente fusível a 100º C, mas no vácuo não era fusível, sendo utilizado como revestimento de cosmonaves. Era resistente ao impacto de meteoritos e de lixo espacial. Era uma pena que Alíria não mais existisse, uma casca totalmente perfurada que se precipitou em direção a Orianes, o seu sol, em um dos muitos cataclismos que foram causados pela mineração desordenada. Num Universo que costumava ser tão organizado e harmônico, a presença humana estava se tornando indesejável e predatória, corroendo e derrocando sistemas inteiros. Desequilíbrio: esta era a palavra frequentemente usada para explicar o ocaso de vários mundos e sóis em que a humanidade conseguiu pôr a s suas garras fétidas e peçonhentas. Espoliar era a ideia  que norteava a atividade desta espécie no Universo. Somente a Via Láctea ainda não conhecia essa destruição sistemática, embora a semente já esteja plantada há alguns milhares de anos terrestres. Mas até quando? Gopéia também seria contaminada com esse verme planetário, esse parasita mortal que aniquila a tudo sem a mínima cerimônia?



Pelagins* peixes gelatinosos que percebem as boas emoções pelo calor desprendido quando se está na água; sentindo a alteração, se aproximam e aderem à pele da pessoa ou animal, desfrutando do calor desprendido, para se separarem tão logo a emoção cesse. Neste momento emitem um delicioso som audível até mesmo fora da água.

Um comentário:

  1. Muito interessante esse texto, tanto pela descrição imaginativa tanto dos planetas, quanto dos seres e, ainda, do estado de espírito do protagonista.

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